Umha conversa entre o preso independentista Carlos Calvo Varela e as presas anarquistas Mónica e Francisco (atualmente em liberdade)

mailA continuaçom, espalhamos, transcrita da ediçom impresa do jornal Novas da Galiza do passado mes de abril, umha entrevista realizada pelo preso independentista Carlos Calvo ás companheiras Mónica e Francisco, quando as compas encontravam-se na cadea con ele.

As companheiras Mónica e Francisco já nom se encontram, afortunadamente, nas cadeas espanholas, e foram expulsas a Chile onde estam livres na rúa, após que o Tribunal Supremo fixara sua condenaçom definitiva en 4 anos e 6 meses (tendo por tanto as compas ja mais da metade da condenaçom cumprida e podendo optar ao beneficio de mudar o que restaba de condena pela expulsom e a proibiçom temporal de entrar em territorio espanhol). Pensamos que esta é umha entrevista moi interessante e que permite conhecer melhor e comparar o contexto chileno co contexto espanhol en xeral e o galego em particular.

Desde Abordaxe! parabenizamos ao preso independentista Carlos Calvo e a equipa de redacçom do Novas da Galiza pola laboura realizada con esta entrevista.

En novembro de 2013 a polícia detivo em Barcelona as anarquistas chilenas Mónica Caballero e Francisco Solar. Eram as primeiras presas dumha vaga repressiva do Estado contra o movimento anarquista e, até o de agora, as únicas que resultárom condenadas. Enquanto mantínhamos esta conversa o Tribunal Supremo fixou a condena em quatro anos e meio de prisom para cada umha (Nota de Abordaxe!: A condena inicialmente dictada pola Audiencia Nacional contra as compañeiras ao rematar o seu xuízo en marzo do 2016 foi de 12 anos e medio para cada unha, dos 45 anos que solicitaba por cabeza a fiscalía). Compartimos aquí agora, mais ou menos ordenadas, as ideias que fomos enfiando enquanto corríamos no pátio ou através do “correio intermodular”. [Nota: As dúas anarquistas nom estám atualmente em prisom após comutar-se a sua pena por umha expulsom do estado espanhol].

Após umha série de operaçons policiais que culminárom com a vossa detençom, em que estado se encontra agora a repressom do anarquismo no estado?

Mónica e Francisco: Atualmente há 34 pessoas imputadas na Audiência Ncional por pertença a “organizaçom anarquista terrorista”. Há uns meses o Tribunal de Instruçom n.º 3 da Audiência Nacional arquivou a causa contra nove pessoas mais, detidas na operaçom denominada Pandora III (Piñata) por nom haver indícios da pertença a organizaçom “terrorista”, nem da existência da mesma. Para isso contribuiu também a sentença do nosso caso, que nos absolveu de dito cargo.

A organizaçom anarquista à qual se nos queria atribuir participaçom, e da que se pretende provar participaçom à gente dos entornos anarquistas, teria o nome de GAC/FAI/FI (Grupos Anarquistas Coordinados/Federaçom Anarquista Informal/Frente Revolucionária Internacional). Segundo a tese da fiscalia, a primeira (GAC) seria umha agrupaçom de células que planificariam diversas açons dentro do estado espanhol, enquanto a segunda e terceira seriam “umha marca de ataque” que usam grupos anarquistas para reivindicar as açons. Aliás, GAC seria a “sucursal” ibérica de FAI/FRI, argumento com o qual a fiscalia procurava dar peso á sua imaginativa teoria.

O tribunal que nos condenou negou taxativamente que GAC tivesse carácter terrorista, mesmo questionou que fosse umha organizaçom argumentando que estas necessariamente deviam ser hierarquizadas e estruturadas.

É importante assinalar que a maior parte de imputadas só se as acusa de pertença a esta suposta “organizaçom terrorista” e todas ellas se encontram na rua. Porém, há cinco moços também imputados por pertença a organizaçom terrorista, non especificando a que ou a qual se refere, só que pertenceriam a um coletivo straight edge. [Nota: Um destes moços passou 488 dias em prisom sem julgamento].

A magnitude das detençons, registros e alheamentos nas quatro operaçons antianarquistas evidentemente afetou aos espaços libertários, especialmente em Madrid e Barcelona. A isto somase o facto de que as acusaçons som sumamente ambíguas, dando a sensaçom de que qualquer pessoa cercana ás ideias e práticas anarquistas pode rematar na cadeia. Esta sensaçom, segundo a nossa apreciaçom, acarretou certo imobilismo da atividade anarquista. Mas vemos que começa a colher novas energias e fortalecer-se depois dos golpes recebidos.

No vosso caso também fostes detidas, encarceradas e julgadas em Chile, um estado com bastantes semelhanças no terreno repressivo com o espanhol. Quais diferenças estades a viver entre um estado e outro?

F: Embora há bastantes semelhanças, também há muitas e marcadas diferenças segundo temos podido comprovar. No plano jurídico, se bem entendemos que em nengum estado existe isso que chamam “separaçom de poderes”, cremos que o estado espanhol representa um claro exemplo disto. A figura do juiz instrutor na justiça chilena nom existe, ali só é a fiscalia a que investiga e pede diligéncias á policia e peritos. Em Chile tampouco existe um tribunal de exceçom como a Audiência Nacional, mesmo os casos onde se acusa por “terrorismo” som levados por tribunais ordinários onde os juízes nom som cargos políticos, a diferença do que sucede nos tribunais herdeiros do Tribunal de Ordem Público franquista. Isto último chamou-nos particularmente a atençom na fase de instruçom, onde o juiz Eloy Velasco foi muito mais veemente e acusador que a própria fiscal nos interrogatórios. Algo similar sucedeu no julgamento: desde um principio tivemos a certeza de que seriamos condenados já que a atitude e intervençons da juíza presidenta da sala eram claras e nom davam espaço a dúvidas. Na Audiência Nacional os julgamentos som um mero trámite além de serem bastante breves. O nosso durou trés dias, a diferença do que tivemos em Chile que tardou seis meses com sessons todos os dias, umhas 180 sessons. Segundo a nossa apreciaçom a condena estava já ditada e o que se debateria eram os anos e os cargos que nos dariam. A esta sensaçom contribuirom as declaraçons policiais que se caracterizaram pola sua falta de prolixidade. Dava a sensaçom de que os próprios polícias eram cientes de que nom era necessário esforçar-se demasiado já que a condena estava assegurada.

Polo contrário, no julgamento que tivemos em Chile, as declaraçoms duravam dias completos, nas quais apesar de que se evidenciava falta de experiéncia na matéria (foi o primeiro julgamento contra um grupo de anarquistas na história recente de Chile), pudo-se apreciar o esforço por dar um relato completo e coerente. Este esforço que mostrou a polícia e fiscalia chilenas deu-se em todo o processo, o qual estivo marcado pola tentativa de buscar pessoas que se infiltraram nos espaços anarquistas para depois serem utilizados como testemunhas. Mesmo quando estivemos presos a fiscalia comprou um preso para que se acercasse a nós e depois testificasse a informaçom que conseguisse tirar. A fiscalia chilena era consciente de que com o que tinha nom podia conseguir condena algumha, o que afinal sucedeu, por isso se viu na necessidade de recorrer a esse tipo de estratégias no entanto aquí nom lhes é necessário já que com o mínimo asseguram umha condena. A nós condenarom-nos só com indícios, nom havia nenhumha prova material, o único com o que contavam é com a nossa posiçom política já que nunca ocultamos a nossa postura anárquica.

No plano da cobertura mediática também percebemos diferenças significativas. Quiçá isto se deva a que os processos foram diferentes: em Chile fomos catorze acusadas de “associaçom ilícita terrorista” e de colocaçom de trinta artefatos explosivos, das quais fomos apenas seis a juízo com os cargos particulares já que a acusaçom por associaçom ilícita finalmente arquivou-se. Aquí fomos inicialmente cinco imputadas, das quais apenas as duas fomos a julgamento acusadas de pertença a organizaçom terrorista, estragos e conspiraçom. Em Chile os “bombaços anarquistas”, como foi chamado mediaticamente, foi um tema que estivo na palestra noticiosa durante anos, sendo objeto de reportagens, investigaçons e editoriais dos principais jornais do país nos quais se criticava a ineficácia policial ao nom conseguirem identificar os responsáveis do que por essa época eram mais de cem açoms con artefatos explosivos. Tanto a imprensa conservadora quanto a progressista tentárom absurdamente tirar o conteúdo político às formulaçons e práticas anarquistas falando permanentemente do “lumpen autodenominado anarquista”. Portanto, umha vez realizadas as detençons, a cobertura do caso foi total. Publicavam-se até os mais mínimos detalhes do decorrer da investigaçom e a imprensa validou cada umha das teorias da fiscalia.

Se bem no estado espanhol houvo certo balbordo mediático, nom se lhe deu tanta cobertura como em Chile. Evidentemente, os meios de comunicaçom como ferramenta de poder som parte fundamental do mantimento do estabelecido, portanto sempre corroborarám a versom policial. Porém, nestes territórios nos últimos anos nom houvo umha vaga de açons anarquistas como as que se dérom (e se dam) em Chile polo que o tema nom estava em boga a nivel mediático, ao que podemos adicionar que aquí, segundo a nossa perceçom, há umha clara pretensom por parte dos meios de comunicaçom do poder de ocultar determinadas notíticas que dam conta dumha certa conflituosidade social.

M: Se bem a realidade do tratamento carcerário nas prisons do território espanhol é muito heterogénea, já que cada direçom, ja que cada direçom carcerária aplica a normativa segundo a sua interpretaçom da mesma, na minha experiência nom encontrei muitas semelhanças com o que conhecim em Chile, e isto devese principalmente a que ali nom existe umha política de exceçom.

Aqui “Instituciones Penitenciarias” leva muitíssimos anos a utilizar diversas ferramentas para castigar os inimigos do seu prezado Estado, existe uma grande estrutura diligente capaz de isolar-te e conduzir-te ao outro estremo da península em tempo bastante curto, a dispersom nom é umha prática habitual no lugar onde provimos.

Aliás, como dizíamos anteriormente há muito tempo que nom se processava alguém pola lei antiterrorista (no momento em que nos detiveram, porque atualmente isto mudou) que nom fosse mapuche, polo que nom existia um controlo específico para presos com as “nossas características”.

Todos nos achávamos em módulos de alta segurança, algo parecido com os de isolamento ou de primeiro grau aquí. Neles costuma haver de forma transitória presos refratários e/ou protagonistas de desordens graves ou fugas. Os que estavam permanentemente na sua maioria eram cabeças de grandes bandas de narcotráfico. No caso dos rapazes tambén se encontravam com ex-militantes de algumhas organizaçons revolucionárias que nos anos 80 e 90 luitárom contra a ditadura e princípios da democracia, e que voltárom à prisom por delitos como atracos.

Para o corpo de carcereiros em Chile fomos algo assim como um “bicho estranho”, por umha parte compartimos formas e códigos dos antigos presos políticos, mas nom tínhamos as suas lógicas partidistas ou qualquer tipo de hierarquia. Com o resto de presos a situaçom foi parecida, apenas quem conheciam o mundo carcerário de havia tempo podiam compreender os motivos que nos levaram a prisom.

E no nível de movimentos populares? Aqui temos a imagem de que os movimentos sociais chilenos son mais combativos que os do estado espanhol…

F: O nivel de conflituosidade social que se vive em Chile é mais intenso. As diversas expressons políticas contestarárias utilizam constantemente o confronto na rua, o que em certo modo está normalizado e é olhado sem surpresa pola sociedade.

Acho que o movimento popular mais forte que se deu em Chile nos últimos anos é o estudantil, nom o universitário, senom o dos colégios que tivérom em jaque os últimos governantes com as suas greves e ocupaçons. As suas multitudinárias manifestaçons son permanentes tornando, polo menos umha vez por semana, o centro de Santiago num verdadeiro campo de batalha. As ocupaçons dos estabelecimentos duravam em muitos casos todo o ano escolar, onde o estudantado tomava o controlo dos seus colégios levando a cabo iniciativas autónomas. Os partidos políticos por mais que tentárom apropiar-se e, por tanto, apagar este movimento fracasárom estrepitosamente. Em definitiva, rejeitou-se levar o movimento polas vías cívicas e essa, acho, é a grande diferença com os movimentos populares do estado espanhol, os quais, segundo a minha opiniom, estám demasiado enquadrados na legalidade. É lamentável ver como iniciativas autónomas rematam fagocitadas pola política institucional. O civismo calhou em grande parte da populaçom e os movimentos populares nom fórom a exceçom. Desta forma um amplo setor dos movimentos sociais optou pola via institucional dando origem a diversos partidos políticos que, como temos visto, em pouco ou nada se diferenciam dos tradicionais. Polo tanto, creio que em geral os movimentos sociais do estado espanhol representam um freio às expressons de combatividade ao intentar levá-las polo caminho legal e cívico.

Ora bem, dentro da dinâmica dos movimentos populares chilenos as expressons machistas som umha constante que, ao parecer, pouco a pouco se começa a combater com o auge de grupos feministas ativos. Polo contràrio, os grupos feministas que tivem a oportunidade de conhecer em Barcelona tenhem um discurso e umha prática antipatriarcal sustentadas em anos de trabalho e luita, o qual influiu notoriamente nos movimentos populares.

O Estado chileno e a imagem do mapuche

Tenho a sensaçom de que pola fortaleza de resistência mapuche a esquerda chilena estaria mais ‘descolonizada’ que a espanhola, de tradiçom nacionalista. Vede-lo assim?

F: De nengumha maneira. Segundo a minha visom a esquerda chilena é sumamente patriota e salvo contadas exceçoms, nom reivindicou a luita mapuche. Quando se achegou ao mundo mapuche sempre o fijo por conveniência partidista, jamais para apoiar a súa autodeterminaçom. Isto foi compreendido finalmente polos setores mais combativos das mapuches, que optárom por afastar-se de todo o que cheire a política chilena, seja de esquerda ou direita. Junto com o anterior, a esquerda chilena, desde os seus inícios, percebeu o mapuche como camponés pobre e chileno, embora com costumes e crenças próprias, mas chileno à fim e ao cabo. Portanto, qualquer iniciativa que procure a rutura com Chile é impensável que seja apoiada pola esquerda, polo contrário intentarám aplacá-la por todos os meios. Nesse sentido, a esquerda nom se viu refletida na resistência mapuche e as suas icones foram e som operários, particularmente os que foram explorados nas minas salitreiras do Norte chileno a princípios do século XX, como também as diversas guerrilhas latino-americanas e os seus heróis. Da mesma forma que o fijo a elite terratenente que deu origem ao estado chileno, a esquerda exaltou a figura do mapuche como sujeito guerreiro e luitador contra o colonialismo espanhol, porém essa exaltaçom ignorou a cultura do povo mapuche, com costumes que se reelaboram e reinventam constantemente. Portanto, no relato chileno, onde a esquerda non é a exceçom, fai-se umha sorte de promoçom turística do mapuche. DE todos os setores políticos tentou-se chilenizar o mapuche, com estratégias diferentes mas o propósito sempre foi despojá-los da sua cultura e “civiliza-los”.

Atualmente, quando o movimento mapuche pola autodeterminaçom é forte e ativo, o seu distanciamento com a esquerda é evidente. Nom há pontos de encontro e por mais que a esquerda intente um acercamento o único que encontram é rejeiçom e indiferença causada por anos de manipulaçons e enganos. Os mapuches nom som nem querem ser chilenos, nem de esquerda, nem de dereita.

É importante assinalar que a esquerda nunca questionou a existéncia do estado chileno, criado a partir de ideais europeus, nem tampouco “a chilenidade”, polo contrário, trabalhou para fortalecé-los no seu marcado sentimento patriótico. Todas as suas mobilizaçons e proclamas estám impregnadas de nacionalismo e bandeiras chilenas, a diferença do que sucede aquí onde as bandeiras espanholes só figuram em atos do Estado e nos fascistas.

Umha olhada da Galiza

Chamou-me à atençom que Francisco já conhecia em Chile o movimento independentista galego. Que imagen tínhades do nosso país?

F: A primeira informaçom que tivem sobre o independentismo galego foi lendo o livro de Xosé Tarrío Huye hombre huye, quando fala sobre o Exército Guerrilheiro do Povo Galego Ceive, e chamoume à atençom, já que em Chile o desconhecimento sobre este tema é total. Muito se falou do independentismo basco, e a suposta influência que, segundo os meios de comunicaçom, teria na luita do povo mapuche, mas da luita do povo galego a informaçom é nula. Ainda assim, revisando a imprensa topei com unmha nova que falava dunha vaga de açons contra entidades bancárias e empresas ligadas ao turismo realizadas na Galiza das quais se reivindicava explicitamente o independentismo galego. A partir de aí, procurando a informaçom, soubem do desastre social e ecológico que está a deixar na Galiza o negócio do turismo, e também das açons, principalmente sabotagens, que se vinham realizando para fazer frente ao espólio. Mas, como dixem, a informaçom era escassa.

Umha vez em Barcelona soubem das detençons de independentistas galegos e das fortes manifestaçoms que desencadeárom em diferentes cidades da Galiza. Junto com isto comecei a visitar o portal web Abordaxe que dava cobertura tanto ao independentismo radical galego quanto aos grupos anarquistas que estavam a ser muy ativos na Galiza, á vez que assistim a palestras sobre os presos e a luita galega. Com todo isto, e associado ao que já sabía sobre a luita dos estaleiros, fiquei com a imagem dum povo que utilizava diversas estratégias e táticas de luita, característica que começava a ser cada vez máis difícil de ver no resto do estado espanhol.

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