O Berço do Daesh

Reportagem tirada do Jornal Mapa

Texto e fotografías de Ana Gonçalves

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O Iraque moderno surge de um velho hábito colonialista de desenhar nações a régua e esquadro: a 16 de Maio de 1916 foi ratificado o acordo de Sykes-Picot, entre a Inglaterra e a França, que dá origem ao mapa de nações do Médio Oriente que hoje conhecemos. Ou conhecíamos. Foi já em 2014 que o aparelho mediático do Estado Islâmico nos anunciava o fim das fronteiras desenhadas por Mark Sykes, quando os seus mujahideen estrangeiros destruíam os postos fronteiriços entre a Síria e o Iraque.

Esse mapa, desenhado na mesma sala onde hoje se senta David Cameron, e que respondia à necessidade de dividir o derrotado Império Otomano, foi pensado com absoluto desrespeito pelas populações, as suas culturas, histórias e territórios. Foi este mesmo acordo que reservou uma área para os projectos Zionistas da criação do Estado de Israel, enquanto transformava os Curdos em não-povo, desmembrando as suas comunidades por quatro nações. São estas comunidades que Ana Gonçalves visitou. De lá trouxe as histórias das pessoas que são duplamente confrontados com um momento histórico único em que finalmente vislumbram a possibilidade de construir o Curdistão negado, enquanto travam uma luta de morte com um novo projecto fruto dos jogos imperialistas e colonialistas deste século: o Estado Islâmico.

São algumas dessas histórias e relatos em primeira mão que o MAPA publica neste número, quando se assinalam os 100 anos do infame acordo Sykes-Picot, e na esperança que tenha de facto chegado ao fim não só o seu prazo de validade, mas também a sua influência colonialista no Médio Oriente.

Em Maio de 2015 comecei a escrever um artigo sobre migrantes provenientes de países instáveis por motivos de guerra, repressão política ou falta de liberdade. Sempre me fascinou a luta do povo curdo, apátrida desde há três mil anos que lutava praticamente sozinho contra a ameaça do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh). Através de vários contactos que fiz, conheci Karwan Kurdi, cidadão iraquiano proveniente do Curdistão Iraquiano, estudante de doutoramento de Engenharia dos Petróleos no Instituto Superior Técnico, que após breves minutos ao telefone me convidou para jantar em sua casa. Acabei por conhecer mais estudantes curdos, entre eles Hawreen, também estudante de doutoramento de Engenharia Civil, e figura maior da reportagem que fiz na altura. Naquele jantar em casa do Karwan, à mesa com o Curdistão, fiquei fascinada pela luta e amor que cada um daqueles jovens demonstrava em relação à causa curda. Nessa mesma noite, desenharam-se as primeiras linhas para a viagem ao Curdistão Iraquiano, que teria lugar dali a cinco meses. A pergunta foi simples e direta, queres vir ao Curdistão, ver o outro lado? A resposta foi imediata, sim!

Erbil

A quarta maior cidade do Iraque e capital do Curdistão Iraquiano, Erbil, é uma das urbes mais antigas do mundo, a sua origem remonta a 6000 a.C. A cidade tem uma vida intensa com vários restaurantes, esplanadas, cafés onde grupos de homens bebem chá ou fumamshisha, um bazar principal fervilhante composto por várias artérias onde facilmente nos perdemos numa tentadora loja de doces ou em lojas de tecidos de mil padrões diferentes provenientes da Índia, do Dubai, da Turquia, onde filas de mulheres entram e saem num corrupio alegre. Há ainda pequenas joalharias faustosas, em que o ouro predomina, lojas de brinquedos, de telemóveis, sapatarias e toda a espécie de pequenas bijuterias que enchem o espaço.

Fora do bazar, ao ar livre, no parque Shar podemos comer fruta fresca, especialmente romã, que é vendida em pequenos copos, ou deliciar-nos com um refrescante gelado ou sumo fresco, bálsamos para um Verão quente que só ao cair da noite dá tréguas. Um comércio vivo a cada esquina transforma a cidade numa miscelânea de sons, cheiros e sabores que se confundem e inebriam a multidão que passa. Quando se circula pelo centro de Erbil dificilmente se pensa que Mossul, bastião dos extremistas, fica apenas a 80 Km dali, tal a descontração com que a vida decorre na capital do Curdistão Iraquiano.

Desde a queda de Saddam Hussein, em 2003, operou-se um crescimento rápido em Erbil. Numa década construíram-se universidades, centros de investigação, arranha-céus, hotéis, centros comerciais, parques de diversões para as famílias, diversos jardins, com o sentido de melhorar a qualidade do ar. A cidade crescia próspera, atraindo cada vez mais investidores estrangeiros.

Até que em Agosto de 2014, o Daesh (acrónimo árabe do autoproclamado Estado Islâmico) atacava em força a região do Curdistão Iraquiano e chegava às portas da capital. Os investidores, sempre presentes, tornaram-se receosos, as construções abrandaram ou pararam, os centros comerciais, à escala mundial, nunca chegaram a encher, o turismo tornou-se uma miragem, bem como os negócios auspiciosos. O crescimento anual foi em 2015 negativo quando antes atingia os 10%, os bancos começam a fechar por falta de liquidez e as pessoas preferiram manter o dinheiro em casa ou depositá-lo em bancos turcos. Além disso, os funcionários públicos continuam a receber salários com seis meses de atraso, numa região onde 75% da população trabalha para o Estado.

De Bagdad, as notícias que chegam também não são animadoras. O Governo Central, que deveria cobrir 17% do orçamento da Região do Curdistão, não disponibiliza qualquer ajuda já há vários anos, os preços do petróleo descem sistematicamente e, com toda a falta de verbas que existe, o sistema de saúde colapsou, e o sistema de ensino subsiste com muitas dificuldades, pois grande parte do orçamento serve para cobrir as despesas de guerra, como o pagamento de salários aos Peshmerga, armamento e manutenção dos checkpoints.

Se a situação era má desde o início dos confrontos contra o Daesh, piorou quando os deslocados internos começaram a chegar. Cerca de 38% de toda a população de deslocados internos do Iraque, só em Erbil. Os curdos, que sempre foram reconhecidos por receberem de braços abertos todas as minorias e árabes que procuravam refúgio, debatem-se agora com problemas internos graves começando a notar-se algum constrangimento com a presença de cada vez mais árabes pelas ruas da capital.

Para Mohamed, 28 anos, antigo professor de educação física, deslocado interno, dono de um pequeno restaurante kebab, já não é possível viver no Iraque. Vim para Erbil porque corria perigo de vida em Bagdad. As milícias ameaçaram matar-me, então fugi para o Norte, aqui não corro perigo, mas estou a poupar para ir para a Alemanha. O Iraque acabou, Bagdad acabou e era uma cidade tão bonita

Noutro restaurante de Erbil, uma típica família de classe média almoça em silêncio. A minha filha e o marido daqui a poucas horas vão partir para a Turquia de autocarro e a partir daí vão tentar chegar à Europa, ainda não sabem como, se por mar ou por terra. A minha filha tem 23 anos, é professora, e não quer continuar no Iraque. Se tiver sucesso na viagem, em breve chama os irmãos para o pé dela”, conta o pai de família.

Cerca de 4000 refugiados por dia, mesmo no Inverno, chegaram à Europa, um milhão de refugiados a terminar o ano de 2015, número que quadruplicou em relação a 2014, o maior fluxo migratório para a Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

Viagem à linha da frente – os Peshmerga

Sabin Sabir, 28 anos, Peshmerga destacado na aldeia de Tal Alwad, situada a sudoeste de Kirkuk, acompanha-nos até à frente. Estou de férias, mas sempre que o general Kak Azad precisa de mim, mesmo que seja a meio da noite, eu vou. Pego na minha arma, no meu equipamento, saio de casa e apanho um táxi, muitas vezes sem a minha mulher e os meus filhos perceberem”.

Perante a passividade das potências internacionais ao avanço do Daesh, os Peshmerga, um grupo curdo armado, que combate pela criação de um Estado independente do Curdistão nas zonas do Iraque, Síria e Turquia, enfrentam na linha da frente fileiras de homens vestidos de negro, sem nacionalidade definida. Desde Agosto de 2014, cerca de 1300 Peshmerga já perderam a vida e mais de 7000 ficaram feridos na proteção de cerca de 1000 km de fronteira.

Tal Alwad e as restantes aldeias próximas são controladas pelos Peshmerga, contudo toda a região continua a ser muito perigosa, visto que os extremistas controlam ainda várias cidades situadas a sudoeste de Mossul. À medida que nos aproximamos da base, Sabir chama-nos a atenção para as mudanças que se fazem notar. A paisagem muda, torna-se mais árida, desértica, a temperatura sobe, chega aos 47º C. Encontramo-nos na fronteira entre o deserto e as terras de cultivo, significa que nos aproximamos do sul, do imenso e impenetrável deserto do Sudeste.

À nossa espera, na base de Tal Alwad, está o general Kak Azad, responsável maior pelas forças Peshmerga naquela zona. No topo de uma colina, com visão privilegiada sobre todo o território, vários Peshmerga de Kalashnikov na mão mantém as suas posições atrás de trincheiras improvisadas. Ao longe, avista-se um pequeno afluente do rio Tigre, uma fronteira natural que marca a separação entre os territórios.

O general Kak Azad leva-nos para dentro de uma pequena caserna feita pelos seus homens e mostra-nos algumas armas químicas convencionais. Os meus homens não sabiam o que era isto e felizmente que nada aconteceu, porque não temos máscaras, nem equipamento para nos protegermos do gás”, explica o general.

A utilização de armas químicas faz reacender pesadelos antigos, da altura em que Saddam Hussein, em 1988, lançou ataques com armas químicas contra os curdos. Muitas das fábricas de armamento, ainda do tempo de Saddam, foram deixadas ao abandono e à mercê dos jihadistas pelo exército iraquiano.

Após a queda do regime do antigo ditador e o abandono das tropas americanas, o exército iraquiano ficou bastante fragmentado, de um lado Xiitas, do outro Sunitas. O Primeiro Ministro do Iraque, Nuri Al-Maliki agudizou a situação, já de si frágil, quando excluiu os oficiais e soldados árabes sunitas do exército, fazendo com que muitos deles engrossassem as fileiras do Daesh.

No Verão de 2012, já sem tropas norte-americanas no terreno, o Daesh lançava no Iraque a operação Derrubar Muros destinada a tirar das prisões militantes e dirigentes sunitas. Foram os primeiros passos dados pelo Daesh no Sul do Iraque que, entre a ausência do Estado Iraquiano ou, por vezes, a sua estranha passividade, foi terreno fértil para os avanços das milícias. Mossul, uma cidade com cerca de dois milhões de habitantes, onde sempre conviveram Sunitas, Xiitas, Curdos, Yazidis e Cristãos, foi rapidamente dominada pelos extremistas, tornando-se assim o bastião do Califado no Iraque.

Contudo, apesar de todas as conquistas já feitas pelos extremistas, o general Azad faz um retrato pouco abonatório das suas capacidades. Eles não têm um exército bem organizado, nem conhecem tácticas de guerra básicas, mas isso não os torna menos perigosos. Era bem melhor se pudéssemos lutar contra um exército organizado, disciplinado e conhecedor. A forma como eles atacam é através de ataques furtivos feitos por snipers, ataques suicidas ou carros armadilhados refere.

A conversa continua na pequena caserna, vão-se juntando a nós cada vez mais oficiais e soldados. Atenciosamente, servem-nos água fresca e um chá quente antes de almoço, enquanto isso, vários Peshmerga mostram-nos vídeos e fotografias dos combates que travaram na frente, são as suas pequenas crónicas ali narradas, nos ecrãs dos pequenos telemóveis. Corpos sem vida saltam à vista, alguns rostos parecem extremamente jovens…Para se ser um soldado Peshmerga tem que se ter mais de 18 anos, pode ser-se ou não curdo, temos mesmo alguns estrangeiros que vêm como voluntários. Mas, na linha da frente do Daesh encontramos crianças e estrangeiros – europeus, paquistaneses, indianos, até japoneses. Sabemos isso pelos passaportes. O Daesh é um cancro, que destrói tudo”,assegura o general Azad.

Shwan Shwane, 25 anos, estudante de Engenharia Civil na Universidade de Salahaddin, em Erbil, casado e com uma filha de um ano, teve de interromper os estudos por causa da guerra. Agora, é camionista e Peshmerga. Vamos sempre lutar contra o Daesh porque eles fazem mal às nossas mulheres, às nossas crianças. São assassinos brutais. Mas eles não nos vão conseguir vencer porque nós lutamos por uma causa, eles não diz Shwan.

São três da tarde, está um calor que não dá tréguas, na frente as armas permanecem suspensas entre os sacos de areia, em trincheiras improvisadas. O movimento é praticamente inexistente, reina a calma, mas é uma calma enganadora. À medida que a noite cai, a situação torna-se cada vez mais perigosa, porque os extremistas têm melhor material, como óculos de visão nocturna e armas de longo alcance. Estamos a lutar pelo mundo todo aqui refere o General Azad ao nosso lado. Com poucos meios tentamos fazer muito, mas precisamos de mais apoio da comunidade internacional, não podemos fazer tudo sozinhos”.

As despedidas aos Peshmerga são longas, emotivas, com muitas fotografias pelo meio, mas acabamos por ter de voltar à estrada.

Estrangeiros nos Peshmerga

Depois de uma longa viagem chegamos a Dakuk, cidade situada a Sul de Kirkuk, junto ao rio Tigre, base de um batalhão das forças Peshmerga que reúne cerca de 4000 elementos. Os ataques nesta área são contínuos, há inúmeras aldeias à volta completamente destruídas pelos ataques aéreos da coligação e os corpos das vítimas ainda lá estão, sem que ninguém se aventure para fazer a remoção dos destroços com receio de bombas controladas remotamente e minas antipessoais.

Na base de Dakuk conhecemos dois ocidentais que há quatro meses ajudam os soldados Peshmerga na luta contra o Daesh. Oliver e Rebaz (nome fictício) são dois soldados que têm em comum a língua inglesa e a experiência militar. Oliver é canadiano, Rebaz norte-americano. O primeiro esteve oito anos no Afeganistão, o segundo seis anos no Iraque, em Bagdad. Mas o que sentem desde que chegaram ao território curdo do Iraque?

A minha experiência aqui oscila entre expectativa, decepção, cansaço, surpresa, tudo junto, tudo misturado. Estou aqui como voluntário para ajudar os Peshmerga, mas, além disso, também estou a rodar um documentário (1) sobre a minha experiência na Região do Curdistão como soldado estrangeiro. Costumo dizer que tenho a minha arma numa mão e a câmara de filmar na outra, para mim a câmara é como uma arma, porque quero que o mundo saiba o que os Peshmerga fazem diariamente conclui Oliver.

Há quatro meses, Rebaz deixou a casa, o emprego de oito horas, e o filho de três anos, e aterrou em Erbil. “Eu não conhecia o Curdistão e estive no Iraque seis anos a servir o exército dos EUA, mas não sabia que os curdos eram tão diferentes, eles são os nossos aliados no Médio Oriente. Em mais lado nenhum do mundo eu vi pessoas tão honradas e respeitosas, os oficiais estão sempre na linha da frente, podem ganhar mais, mas também morrem como os soldados. Vocês sabem quantos morrem todos os dias?.

Rebaz é um jovem de 26 anos, mede cerca de 1.90, tem várias tatuagens espalhadas pelo corpo, olhos claros e barba ruiva comprida. A expressão é calma, como a de qualquer homem do exército bem treinado, e o discurso é fluente. Já dentro do carro, que avançava em grande velocidade pela terra batida, Rebaz tira do uniforme a fotografia do filho e da antiga namorada. “Este é o meu filho de três anos e esta era a minha namorada, Lydia, que se suicidou. É por causa deles que eu estou aqui, no Curdistão. Fiz coisas muito más quando estive em Bagdad, muito más mesmo. Agora estou no local certo a fazer o que é correto. Lutar contra o Daesh”.

Após cada ataque aéreo da coligação, os refugiados começam a aparecer. Mulheres, crianças e homens fogem das aldeias à procura de abrigo na base. Alguns homens que chegam têm a barba cortada, trazem mulher e filhos, mas têm um olhar frio, calmo. No meio do caos só um soldado consegue ficar assim. Pegamos nos telemóveis que trazem e vemos as fotografias que eles nunca apagam, e imediatamente percebemos que são militantes do Estado Islâmico. Eles não são muito espertos, mas têm nervos de aço. Aqui, na nossa base, sabemos sempre quem eles são, mas não sei como funciona nas outras. Eles misturam-se com as populações e em breve estarão noutro sítio qualquer”, conta Rebaz.

Acompanhado sempre da sua arma, sorriso no rosto, conta-nos que demorou quase um mês a convencer o general a deixá-lo ir para a frente, sempre quiseram protegê-lo ao máximo e fazem isso com todos os estrangeiros que chegam ao Curdistão, são sempre hospitaleiros. “A roupa que tenho foi-me oferecida. Sempre que preciso de algo, fazem o máximo para que eu tenha tudo o que necessito. Ao contrário de outros soldados estrangeiros que pertencem à legião (são cinco atualmente e todos ingleses, que vivem separados do resto do grupo, que tem carros próprios e só atacam quando apoiados pela coligação), eu e o Oliver convivemos com os Peshmerga diariamente. É muito agradável. Querem todos aprender a falar inglês comigo e eu vou aprendendo curdo, anoto todas as palavras novas aqui, neste caderno”.

O que levou o soldado norte-americano do Alasca a deixar o mundo ocidental e a querer combater no outro lado do globo? “Eu sou bom naquilo que faço, no exército, como militar. Não quero voltar a viver no Alasca, sinto-me mais livre aqui do que alguma vez fui lá, vivia para pagar contas… Agora, sinto-me realizado, combato, divirto-me com os meus companheiros e, ao mesmo tempo, estou a escrever um livro para o meu filho, para quando ele for adolescente e quiser saber quem foi o pai, onde é que eu estive, o que é que eu fiz e pode ser que assim ele compreenda melhor quem sou eu”. O livro é cuidadosamente guardado numa bolsa de couro, envolvido numa bandeira do Curdistão, guardado num saco de plástico para ficar protegido da água. “É o meu tesouro”.

Falta tudo

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O campo é imenso, à volta é a desolação completa; aldeias destruídas a perder de vista, um silêncio pesado, nem um sinal de vida do outro lado, mas acredita-se que tudo esteja minado de explosivos e armadilhas. Para Rebaz, esta guerra é muito peculiar. “Parece que estamos na Primeira Guerra mundial, o equipamento é o mesmo. Não há tanques, óculos de visão noturna, máscaras anti-gás, nada! Nem de um lado, nem de outro, trincheiras dos dois lados e ataques combinados, todos sabem quando é dia de ataque. Os Peshmerga não precisam de mais campos de treino, passaram anos em guerra, eles precisam de dinheiro, de equipamento, necessitam que o mundo saiba quem eles são”.

Fomos convidados a passar a noite com os Peshmerga e à medida que as horas avançavam o camião da comida começava a distribuir a refeição, uma saborosa sopa de leguminosas. “É agradável durante os primeiros dias” diz-nos Rebaz, “mas depois de comermos o mesmo todos os dias, já não achamos assim tão bom”. Há jovens e homens mais velhos que se juntam à volta do camião. É ali que comem, convivem e dormem por turnos, pois não cabem todos na camarata. Depois do jantar há ainda jogos de dominó, sorrisos e histórias que enchem a noite. A guerra também se faz destes momentos.

Na manhã seguinte tomamos um bom pequeno-almoço curdo, com fruta, ovos, frutos secos, mas começa a notar-se uma agitação que ainda não tinha sido vista. O general diz-nos que temos de ir embora. É dia de combates e apesar da insistência, não podemos ficar. Está na hora da despedida, para Rebaz o adeus é ainda mais sentido, apesar de dizer que não sente falta de nada no Curdistão, confessa que sabe bem falar inglês com alguém uma vez por outra.

Viagem ao topo da Montanha – O PKK no Iraque

A aliança entre o Governo Regional do Curdistão, no Iraque, e o governo de Ancara não satisfaz muitos curdos, que não esquecem a opressão do governo de Erdogan ao povo curdo na Turquia, cerca de 20 milhões, 55% de todos os curdos a viver no mundo, que não têm direito sequer a falar a própria língua, o curmânji. Por outro lado, na região do Curdistão Iraquiano há muitos simpatizantes do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) que têm combatido desde o primeiro instante as forças do Daesh, que combatem também com a mesma determinação e força as políticas de Erdogan.

À medida que subimos em direção às montanhas de Qandil, no sul do Curdistão Iraquiano, que serve como base e campo de treino para homens e mulheres do PKK, olhamos para cima, sempre à espreita de drones. A linha da frente foi intensa, com o Daesh ali tão perto, mas a ida às montanhas fazia-se em silêncio com os olhos pregados ao céu.

Ao fim de dois anos de tréguas entre o PKK e o governo de Erdogan, o ataque ocorrido em Suruç, em Julho de 2015, contra um grupo de jovens curdos que se preparavam para ir até Kobani, na Síria, em trabalho humanitário, reacendeu os conflitos. Estes jovens sofreram um ataque bombista reivindicado pelos homens de Abu Bakr al- Baghdadi, líder do Daesh, resultando na morte de 32 jovens curdos e mais de cem feridos. Várias organizações e partidos acusaram desde logo as autoridades turcas de terem colaborado, ou pelo menos “permitido” este ataque.

As relações já tensas entre Ancara e o PKK acabaram por se agudizar de forma irremediável. Em resposta a este ataque e à inação do governo turco, houve ataques contra as forças militares turcas, levando aos bombardeamentos intensos por sua parte onde quer que existissem células ativas do PKK.

O território do PKK começa agora, nas montanhas de Qandil, mas temos de telefonar ao meu contacto e se ele não nos atender é porque temos de voltar para casa”. Ir às montanhas em pleno mês de Setembro, quando os ataques turcos não abrandam, é extremamente perigoso, como o nosso guia não se cansa de repetir. Do outro lado do telefone, o nosso contacto diz-nos que podemos avançar. Suspiramos de alívio! A paisagem é maravilhosa, a serra pintada de castanho ocre ergue-se à nossa frente em todo o seu esplendor. Há oliveiras, pomares de romãzeiras e vinhas a perder de vista. A temperatura é amena, o sol não queima, parece que nos aproximamos do paraíso. No topo da montanha, o primeiro checkpoint controlado pelas forças do PKK. Rapazes quase imberbes com Kalashinov pedem-nos os documentos e dizem-nos para desligarmos os telemóveis. Até nós, vem Zagros Hewram, assessor de imprensa do PKK nas montanhas de Qandil, fala um inglês perfeito, sem qualquer sotaque. Há dez anos era professor de inglês no Irão. Com um olhar sagaz, um sorriso delicado e uma descontração que nos surpreende, abre-nos o caminho por entre as montanhas que albergam a guerrilha.

Estão a ver aquele ponto branco ali no céu a piscar? São drones. Estamos a ser vigiados, vocês estão a ser observados”, conta-nos Zagros. Não conseguimos ver nada, mas mesmo que víssemos já não estamos preocupados por estarmos nas montanhas, este cenário idílico vale todos os perigos. A paisagem luxuriante da montanha faz-nos pensar que podíamos estar ali de férias a desfrutar de tudo o que a montanha tem para nos oferecer.

Zagros leva-nos às ruínas de uma casa que foi atacada pelas forças turcas, uma família de sete pessoas morreu ali, um carro completamente queimado e escombros é tudo o que resta.Nós nunca andamos vestidos como civis para proteger a população, não queremos que a população sofra baixas por nossa causa, mas mesmo assim os aviões turcos não hesitam em atacar-nos”. Há livros, canetas e fotografias no chão, um pastor que passa por ali cumprimenta-nos e voltamos a olhar para o céu, para um ponto branco que esteja a piscar.

Passaremos a noite na pacatez das montanhas em casa de uma família de agricultores, na manhã seguinte iremos ao encontro das guerrilheiras do PKK, ou melhor, elas virão ao nosso encontro. Antes do cair da noite ainda visitamos o cemitério e o mausoléu da guerrilha. Centenas de retratos e objectos pessoais de cada uma das mártires que perdeu a vida ao serviço da causa repousam ali, como tesouros para a eternidade. Pentes, carteiras, pequenos espelhos dispostos dentro de gavetas envidraçadas contam-nos histórias, falam. Ao centro, o retrato de Arin Mirkan, uma heroína de guerra, jovem mãe de 20 anos, comandante do YPG (Unidade de Defesa das Mulheres) que em Kobani, cercada de jihadistas e sem fuga possível, envolveu-se com explosivos e fez-se explodir levando consigo 23 membros do Daesh.

À medida que anoitece, já em casa de uma família de agricultores, repousamos bebendo um chá. Um dos jovens da casa, o filho mais novo Dyare, tem 15 anos e quer ser astrónomo. Não é de estranhar, todas as constelações são visíveis a olho nu, como ver um drone num céu tão estrelado? Dyare é um rapaz sorridente, bonito, de olhos verdes, que gosta de Cristiano Ronaldo, mas acha que Messi é melhor jogador, diz-nos que está a preparar uma manifestação juntamente com os amigos. A escola perto de casa vai fechar porque não há professores e a outra escola fica muito distante. Todos querem sair do Iraque, são guerras atrás de guerras, nunca estamos em paz e as pessoas não querem viver assim”, desabafa o pai de Dyare.

A seguir ao jantar, Omar, o irmão mais velho de Dyare, canta canções tradicionais, chamam-se Hairan. Grande parte dos cantores curdos usam poemas eróticos quando descrevem o corpo feminino e todo o processo de fazer amor, alguns artistas juntam também a religião, e isso torna esta expressão artística ainda mais poderosa. Cantam pela noite fora, pai e filho mais velho, que mais tarde nos diz que está apaixonado e costuma cantar para as estrelas, no terraço de casa, à medida que escreve poemas para a amada.

São 7 horas da manhã, a noite passa depressa, sem sobressaltos e mãe e filha já preparam o pequeno-almoço. Na ombreira da porta, a montanha aparece imponente mesmo aos nossos pés, como é bom acordar e ver todos os dias esta paisagem. A vida no campo começa cedo é por isso que partimos em direção ao encontro das jovens combatentes do PKK, que abandonaram toda a sua vida comum para viverem ali nas montanhas sob os ideais de Abdullah Oçalan, um político guerrilheiro e revolucionário curdo, fundador do PKK, visto como o inimigo número um da Turquia, e preso único de uma ilha-prisão sob o olhar de centenas de guardas.

Enquanto subimos de carro pela encosta escarpada, Zagros Hewram conta-nos que o PKK não tem nada a ver com os outros partidos do Curdistão, tem uma filosofia que assenta no comunitarismo, ou seja pequenos grupos na sociedade que se juntam e transformam a sua aldeia vila ou cidade. Depois de esperarmos cerca de uma hora na montanha e de termos entregue o nosso carro, cinco jovens mulheres curdas descem até nós, armadas, com um sorriso contagiante, falam curmânji e são da região de Batman, na Turquia.

Correm até à fonte, vão buscar água e preparamos uma pequena ceia com queijo da serra e pão. Tudo o que comemos é a montanha que nos dá” explicam-nos as jovens guerreiras. A mais nova tem 17 anos e a mais velha 25. Não sinto falta de nada aqui. A minha família era muito pobre, a nossa vida era muito difícil, desde que aqui estou estudo, trabalho e ganhei uma família diz-nos a jovem líder do grupo que já combateu o Daesh. Se teve medo? Não, eles é que têm medo de nós”. Quando perguntamos se podemos ver onde dormem, elas dizem-nos que a vida na montanha é nómada, não têm um lugar certo. Todos os dias treinam, estudam e preparam-se para novas missões. É totalmente proibido o casamento ou relações sexuais entre os elementos, mas qualquer um pode abandonar a guerrilha se não concorda com estes termos. Num Médio Oriente em luta pela afirmação da mulher, a liberdade conquistada por estas jovens guerrilheiras é ouro.

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Fuga para Duhok

Cerca de 130.000 Yazidis chegaram à região de Duhok em Agosto de 2014, vieram através das montanhas quando o Monte de Sinjar, a nordeste de Mossul, junto à fronteira síria, foi invadido pelas milícias do Daesh. Muitos não conseguiram sobreviver às difíceis condições climatéricas: temperaturas que rondavam os 50ºc, sem água, comida ou medicamentos. Um genocídio foi evitado quando as forças Peshmerga curdas e os guerrilheiros do PKK, com o apoio aéreo dos EUA, abriram um corredor humanitário através das montanhas, evitando desta forma um massacre anunciado. Em Sinjar, segundo dados recentes das Nações Unidas, o Daesh mantém cativas cerca de 3000 mulheres e crianças Yazidis, transformadas em escravas sexuais e condenadas a uma vida de trabalho forçado.

Em Sharia, distrito de Duhok, um vasto campo para desalojados, construído pelas autoridades turcas, alberga cerca de 9000 famílias Yazidis provenientes do Monte de Sinjar. Cerca de 800.000 Yazidis curdos encontram-se espalhados pelo Norte do Iraque, principalmente na zona de Sinjar, Mossul, e, mais recentemente, depois dos ataques do Daesh, também em Duhok, Erbil e Sulaymaniya.

O campo de Sharia localiza-se num planalto nos arrabaldes da cidade, visto ao longe é uma massa compacta de tendas brancas que brilham sob o sol impiedoso. O primeiro passo é esperar à entrada enquanto mostramos os nossos documentos às autoridades, à espera de autorização para entrarmos. Somos desde logo acompanhados por dois trabalhadores humanitários que vivem no campo e falam inglês na perfeição.

Junto a um dos portões, um grupo de crianças com baldes e garrafões encontra-se à volta de uma das torneiras do campo, enquanto as mães e as avós lavam a roupa. O campo é barulhento, ouve-se o riso das crianças, as vozes das mulheres que conversam, o barulho das máquinas escavadoras em obras, os homens que vendem nas bancas. Num muro do campo, o número 74 aparece escrito em letras encarnadas, é a 74ª vez que a minoria curda Yazidi é perseguida. As perseguições ao povo Yazidi tiveram início ainda no século XIX, durante o império otomano, e estenderam-se durante o regime de Saddam Hussein. Actualmente são um alvo fácil dos ataques de um inimigo sem rosto nem identidade, que os considera adoradores do Diabo. No entanto apesar de todas estas perseguições e massacres, a sua fé mantém-se inabalável.

Khalaf Mahmood, residente no campo de deslocados internos de Sharia, 65 anos, conseguiu chegar a Duhok, mas a sua mulher e filhas ficaram nas mãos dos jihadistas. Não quero nada, nem ir para lugar nenhum, só quero a minha família de volta. Choro todos os dias e não consigo comer. Onze membros da minha família estão desaparecidos, não sei nada deles, mas sei que com 10.000 dólares americanos conseguia salvá-los a todos”.

Através do recurso a contrabandistas é possível resgatar vários familiares ao Daesh, no entanto é uma tarefa difícil, perigosa e muito dispendiosa para as famílias. A SAIFO, uma ONG curda, é responsável pelo resgate e salvamento de vários Yazidis, das áreas ocupadas pelos jihadistas.

É muito arriscado, primeiro temos de chegar aos contrabandistas, depois eles têm de chegar aos jihadistas e todo este processo é muito dispendioso para as famílias. Nós conseguimos juntar dinheiro através de donativos feitos pela sociedade civil, mas não temos quaisquer apoios das Autoridades para fazermos isto conta Diler Sinjary, director-executivo da SAIFO.

O autoproclamado Estado Islâmico tem outros recursos financeiros para além da venda de petróleo, que atinge cerca de 500 milhões de dólares por ano, sendo o comércio de escravas sexuais um dos mais importantes e rentáveis. Não estará esta ONG, indirectamente, a ser uma fonte de rendimento do Daesh? O dinheiro nunca vai directamente para eles, pagamos a intermediários, temos de fazer qualquer coisa, não podemos abandonar os nossos argumenta Diler Sinjary.

Maha Abduhalla (nome fictício) é uma jovem adolescente como tantas outras, que está agarrada ao telemóvel. Contudo, a vida de Maha Abduhalla sofreu um duro revés quando há um ano foi feita refém pelos jihadistas.

Fui violada e vendida por três vezes. Um dos homens que me violou era sobrinho de um dos meus vizinhos, tentei falar com ele, «por favor, não faças isso, tens a idade do meu irmão», mas ele não fez caso. Uma das vezes em que fui capturada, telefonei ao meu pai, e o violador descobriu e espancou-me. O meu pai ligou-lhe então, a dizer que já tinha o dinheiro para me comprar de volta, 150.000 dólares, e no final da chamada ele olhou para mim e começou a rir, a dizer que quando o meu pai chegasse ia matá-lo e ficar com o dinheiro. Depois começou a rir-se de novo. Liguei ao meu pai e implorei-lhe que não viesse… Não há nada que me faça feliz neste momento. Não tenho namorado e nem quero, nem gostaria de ter filhos. Por causa da minha história, fui a Londres, aos estúdios da BBC, em Novembro. Vou agora para a Alemanha, onde vou receber apoio psicológico durante dois anos, e espero nunca mais voltar ao Iraque. Gostaria de estudar outra vez e ser engenheira” conta Maha.

Quando lhe perguntámos como tinha sido a reação da sua família quando a voltou a ver, ela contou-nos que o pai passou vários dias a chorar agarrado a si. As mentalidades estão a mudar e, se antes do aparecimento do Daesh, havia códigos de honra bastante severos em relação às mulheres Yazidi, agora, os pais só querem ter as suas filhas de volta.

Sheilman Shibo, 42 anos, líder de uma equipa numa organização humanitária em Duhok, afirma: “Tenho orgulho em ser Yazidi, mas sou uma pessoa em primeiro lugar. A minha fé está no meu coração. O que o Daesh faz connosco é um massacre, mas fazem o mesmo em Tal Afar e contra os curdos em Mossul, eles matam toda a gente,” argumenta.

O Êxodo

Mais de quatro milhões de pessoas já chegaram à Europa desde o início da guerra na Síria, em 2011, entre eles sírios, mas também iraquianos e afegãos procuram salvar as suas vidas. No entanto, as fronteiras continuam fechadas, por isso torna-se necessário empreender odisseias demasiado perigosas, que passam quase sempre pelo Mediterrâneo, em barcos sobrelotados.

Diria que mais de 95% das pessoas aqui no campo querem ir para a Europa. O meu filho tentou ir para a Alemanha através da Turquia, mas não conseguiu avançar mais. Acabou por voltar para o campo, sem os 10.000 dólares que levou para pagar aos contrabandistas. Agora, passa os dias agarrado ao telemóvel no facebook. O que é que eles hão-de fazer aqui? Não há nada para os jovens fazerem”, recorda Sheilman Shibo.

Mais de metade da população deslocada na Região do Curdistão tem idade inferior a 18 anos, estas crianças e jovens vêem-se obrigados a trabalhar para ajudar no magro orçamento familiar, deixando a escola por falta de condições e dinheiro. As escolas, no campo de refugiados, não estão preparadas para o Inverno, os edifícios estão mal construídos, a chuva infiltra-se pelas paredes, não há mesas, cadeiras, livros, nem professores em número suficiente. Um grande número de crianças na região do Curdistão Iraquiano não vai à escola por falta de documentos e condições.

Hussein, 42 anos, é professor no campo de deslocados internos Cover Two também situado em Duhok. Encontramo-lo à saída da escola, não era dia de aulas, só de entrega de presentes por parte das autoridades curdas. As crianças, sentadas no chão, ouviam os discursos de políticos e responsáveis de organizações não-governamentais. Cá fora, algumas centenas de crianças esperavam espreitando pelas grades, mas não puderam entrar.

Isto não serve para nada, nada desabafa, Hussein. As autoridades (do Governo Regional do Curdistão) vêm cá muitas vezes mas não resolvem os verdadeiros problemas. Estas crianças são extremamente pobres; não têm sapatos para virem à escola, roupa, mochilas, não têm nada, porque os pais não têm dinheiro para gastar com elas. Há quatro escolas no campo e as turmas chegam a ser de 50 alunos, logo não há cadeiras nem mesas para todos e as salas são muito barulhentas. Às vezes, as crianças vêm à escola, mas acabam por não voltar. Para as encontrarmos basta darmos uma volta no mercado de Duhok. Estão lá, a trabalhar”.

Uma menina agarra-se às pernas do professor, ainda não o largou. Hussein conta-nos que nenhuma daquelas crianças tem qualquer tipo de apoio psicológico e a maior parte delas estiveram nas montanhas, algumas viram os pais morrerem. “Muitas destas crianças precisam de apoio psicológico urgente. Elas estiveram nas montanhas sem comida ou água, algumas perderam a família. Antes dos ataques do Daesh tínhamos tudo: escolas, casas, carros, paz. Agora, não há qualquer lugar seguro em Sinjar. Costumávamos dizer que para o ano as coisas seriam melhores, mas agora já não há esperança aqui. Estamos a viver numa prisão”. Hussein acrescenta ainda: “Todos os professores que conheço estão a tentar chegar à Europa, a países seguros. Perdi dois filhos no Mediterrâneo, o terceiro sobreviveu e regressou, mas está a tentar ir de novo. Há famílias com 20 pessoas que compram um bilhete para um membro da família tentar a sua sorte. Eu tinha uma casa, um salário, e os meus dois filhos, agora não tenho nada”.

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A viagem aqui documentada teve o apoio da Tolerancy International (www.tolerancy.org), uma ONG curda. Fizeram parte da equipa Ana Gonçalves, Karwan Kurdi, Fabíola Prado (fotojornalista) e Luís Brás (realizador).

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