“Niilismo como estratégia” por A!

tumblr_n19gggfi1n1qdg6sho1_500Texto tirado do número 2 do fanzine anticivilización Erva Daninha (Brasil) e publicado en Abordaxe por Disnomia.

“O niilismo é como um extremo que não pode ser transcendido, e mesmo assim é o único caminho de transcendência; é o principio de um novo começo.”

– Maurice BIanchot, os limites da experiência: Niilismo

Se desejamos um outro mundo, o que devemos fazer para alcançar este fim? Que mudanças devemos efetuar pessoalmente, socialmente e como um movimento? (1) Além de “tomar o poder”, quais são as dificuldades em resolvermos as contradições do sistema metodológico atual de organização social, assim como as soluções parciais oferecidas pelos que também buscam poder social? Até que ponto essas mudanças devem acontecer agora ou podem ser parte da “ação como conseqüência”?

É neste ponto que o niilismo pode fornecer uma nova perspectiva. Uma definição de niilismo (2) pode ser a noção “de que as condições na organização social estão tão ruins que a destruição da mesma é desejável para seu próprio bem independente de qualquer possibilidade ou programa construtivo”. Isso expõe uma das grandes falhas ideológicas do ativismo moderno: A articulação de um “mundo-ideal” como resultado de nossas ações não garante a criação deste mundo.

É a tradição de uma concepção materialista da história que permite que a ilusão de causalidade corrompa o espírito de hoje. Se produção e troca são a base de cada estrutura social através da história, então poderíamos nos limitar a estudá-los para entender como uma transição para um outro mundo pode ocorrer. Portanto uma compreensão de sistemas econômicos devia bastar para compreender-se oportunidades estratégicas para transições. Como a maior parte da economia é a compreensão das relações entre instituições (que só prestam contas às estruturas de poder atual), tal análise pode parecer como tentar entender um motor de combustão interna apenas observando o movimento do carro.
O materialismo foi visto por muitos como uma concepção incompleta da história. Isso se deve parcialmente às estruturas de poder inseridas na formação de quase todas as instituições, mas deve-se também a forças morais que desafiam o suporte funcionalista do materialismo. Num exemplo simples, um Deus benevolente criou o universo e tem interesse em como as coisas andam por aqui. Portanto sistemas morais existem em nome dos interesses de Deus, como proclamado em textos sagrados e por interpretes falíveis. Desde a dispersão da reforma religiosa e da ascensão da ciência, a moralidade é geralmente definida em relação à política. Isso levou ao aspecto moral da análise de Marx sobre a esquerda em geral.

“Os comunistas, portanto, são a parte mais avançada e determinada dos partidos de classe operária de cada país, a parte que empurra todos avante; por outro lado, teoricamente, eles tem sobre a grande massa do proletariado a vantagem de claramente entenderem as manifestações, as condições e os resultados finais do movimento proletário.” [O Manifesto Comunista, Marx e Engels]

O valor moral, ou o “bom”, é definido pelos valores culturais europeus específicos, de uma desenvolvida visão de mundo cristã e as crenças em desenvolvimento do individuo, merecimento, e mercantilismo. Estes são ainda os obstáculos nos quais até os mais visionários ativistas caem, por vezes de forma espetacular.

A evidência histórica, se for levada a sério, pode de fato demonstrar que as visões de revolucionários sociais “bem sucedidos” tem pouquíssimo a ver com a forma da nova sociedade que criaram. Tome a Revolução Francesa como exemplo, onde a ordem da classe social devia ser mudada. Ela mudou, de três estados (igreja, nobreza e burguesia), para um estado poderoso, burocracia centralizada e a infra-estrutura capitalista em desenvolvimento. Tudo que levou a isso foi o Comitê de Segurança Publica, um Domínio de Terror e uma guerra de 18 anos que mudou a forma de como se faz guerra no mundo. Para a Revolução Russa muitas tendências distintas aspiravam a uma vitória revolucionária. Seus eventuais líderes clamavam por “todo poder aos soviéticos” e acabaram contentando-se em exterminar a oposição e decretar a Nova Política Econômica. O século vinte acabou com um excessivo declínio não apenas em mudanças sociais bem sucedidas mas também no empobrecimento de visionários que estejam buscando mudanças.

Anarquismo e niilismo tem antecedentes comuns. A frase de Bakunin, de 1842, “Coloquemos nossa confiança no espírito eterno que destrói e aniquila porque é a fonte inacessível e eternamente criativa de toda a vida. O desejo de destruição também é um desejo de criar”, estimulou ambos os movimentos. O auge cultural do niilismo foi em torno de 1860, embora seu ativismo tenha continuado até quase o começo do século vinte. É discutivel se os anarquistas não herdaram o conceito ‘propaganda pela ação’ de niilistas russos. Teóricos niilistas (3) continuaram a ser citados como precursores da atividade revolucionária na Rússia, até que “foram desaparecidos” durante o regime Bolchevique.
O que o niilismo tem a oferecer além de um mero fascínio pela destruição? A posição niilista não permite os confortos deste mundo. Não só Deus está morto para um niilista, como também tudo que tomou o lugar de Deus: idealismo, consciência, razão, progresso, as massas, cultura, etc. Sem o conforto deste ‘lugar’ metafísico, um niilista estratégico está livre para ser levado sem restrições pelas conseqüências de suas ações. “Um niilista é uma pessoa que não se submete a nenhuma autoridade, que não aceita nenhum princípio da fé, não importando o quanto esse princípio seja reverenciado” (4). Filosoficamente, muito resultou das idéias niilistas sobre valores, estética e prática.

Um exemplo são as concepções de Theodor W. Adorno sobre Dialética Negativa, um princípio que recusa qualquer tipo de afirmação ou positividade, um princípio de completa negatividade. A tradição niilista inclui Adorno, Nietzsche, Bakunin, muito da literatura russa clássica, Dada, punk rock, algo de Heidegger, existencialistas, pós-estruturalistas, pensadores pós-modernos e muito do anarquismo. O que isso realmente quer dizer na época atual? Niilismo estratégico admite a possibilidade de que não haja futuro. A possibilidade de radicais transformações sociais se desconecta das aspirações utópicas de seus defensores. Suas “esperanças” podem ser claramente vistas como desconectadas da realidade social e material da sociedade como ela é e da sociedade como ela poderia ser. Se a destruição da ordem atual deve ser alcançada para que nosso próprio potencial seja compreendido, pelo seu próprio bem, pelas crianças, talvez seja melhor fazê-lo com os olhos abertos do que com olhos propositalmente cegos. Um niilista estratégico compreende que uma revolução ética não cria uma sociedade ética. Um anarquista ético não se preocupa com uma transformação social não-utópica, apenas com uma idealizada. Um niilista estratégico entende que a infraestrutura do mundo moderno mistura sua própria lógica e habitantes, e o niilista está disposto a desmantelar tudo de qualquer forma.

Vaneigem alega na Revolução da Vida Diária, que “Delinqüentes juvenis são os legítimos herdeiros do Dada.” Isso acrescenta muito a um niilismo positivo, pois pode ser uma maneira confortante na qual podemos lidar com as conseqüências problemáticas inseridas na lógica niilista. Anarquistas, em geral aceitaram a destruição de propriedade em sua visão humanista de uma mudança social ética. Coisas são menos importantes do que pessoas. O niilismo nos informa que essa dicotomia nos prende ao mundo que devemos transcender, antes mesmo de sermos capazes de realmente nos relacionarmos com pessoas e não com coisas. O niilismo estratégico nos dá a solução ao existencialismo e ao liberalismo. Ele argumenta a favor de uma postura ativa neste mundo e é contra soluções reformistas. Quando confrontado com o horror de própria sua existência, corra em direção às sombrias conseqüências, não fuja delas. Lide com o moralismo explicitamente, mostrando um claro descaso por políticas de identidade, comunismo e pós-modernismo, e com a espada em mãos. Moralistas não merecem nenhuma paciência.

E se você estiver lutando “dentro do próprio movimento”? O niilismo pode fornecer muitas ferramentas. A primeira é um profundo ceticismo. Cada ação, cada encontro, estão cheios de políticos enrustidos que são fáceis de identificar, com seus sorrisos plásticos e fluência com “os procedimentos”. Um niilismo estratégico permite que seu praticante veja esses indivíduos como eles são; e a habilidade de fazer com eles o que for necessário pela sua própria analise, não a de outros.

A segunda ferramenta é um novo olhar em relação a História. Enquanto antes pode ter sido fácil se prender aos detalhes dos quems, quandos e porquês da Comuna de Paris, agora é fácil ver falhas na parcialidade sem atolar-se com as meias-medidas específicas. Tempo gasto argumentando-se com quantos paus se faz uma canoa é tempo não investido em qualquer outra coisa.

Finalmente, a posição de um niilista estratégico permite um alcance de movimento que antes não existia. As limitações éticas de “fazer a coisa certa” transformaram os movimentos de mudança social. Desde pacifistas e éticos que hipocritamente esperam que suas convicções destruam o capitalismo, até adeptos da forma de protesto social da Era Vietnã. Está claro que o terreno permitido pela moralidade é vazio e lamacento. Grupos de luta armada, que lideraram massas não-existentes em direção a seu mundo melhor, mostraram um fracasso parecido. Se estes não são os modelos que exibem suas concepções de mudança, você está livre para fazer movimentos no tabuleiro de xadrez que ninguém mais está fazendo. Você começa a escrever regras para as quais os que estão no poder não estão preparados. Você pode olhar de vários ângulos, você pode definir seu ritmo, você pode começar a sonhar grande mais uma vez, ao invés de ter sonhos apenas do tamanho da próxima manifestação, ação ou guerra.

Notas:

1. O termo movimento é usado para fornecer aqui uma perspectiva. É uma questão de escala na Cultura Ocidental de começar com o Eu e acabar na sociedade. Enquanto rejeitamos esta tautologia; nós acolhemos a claridade da sua aparente simplicidade.
2. Existem tantas definições de niilismo como de anarquismo. A diferença é que na extensão em que existe um fenômeno social de niilismo é largamente regressivo e insular. O anarquismo tem espetáculos de marionetes, o niilismo tem apenas café simples e cigarros.
3. Chernyshevsky, Pisarev, and Herzen
4. Ivan Turgenev’s 1861 novela Pais e Filhos
“Eventualmente o Sistema irá chegar a um ponto – a palavra que fornece a pista social é “integração” – em que a dependência universal de todos os momentos em relação a todos os outros momentos tornam o discurso sobre causalidade obsoleto. É inútil procurar – Pelo que poderá ter sido uma causa dentro de uma sociedade monolitica. Apenas essa própria sociedade permanece a causa.” – Theodor W. Adorno,  Negative Dialectics

Advertisements

Deixar unha resposta

introduce os teu datos ou preme nunha das iconas:

Logotipo de WordPress.com

Estás a comentar desde a túa conta de WordPress.com. Sair / Cambiar )

Twitter picture

Estás a comentar desde a túa conta de Twitter. Sair / Cambiar )

Facebook photo

Estás a comentar desde a túa conta de Facebook. Sair / Cambiar )

Google+ photo

Estás a comentar desde a túa conta de Google+. Sair / Cambiar )

Conectando a %s

%d bloggers like this: