Presságios Negros: política anarquista na época do colapso

Este texto foi extraído da ediçom #3 da Revista Estudios. Foi escrito pelo anarquista israelense Uri Gordon. A traduçom foi realizada por Kataklysma. Anexamos também a ligaçom da ediçom da brochura em pdf.

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Tem sido evidente há décadas. Apenas com a combinação de grandes doses de ignorância, arrogância e autoengano se conseguiu caricaturar um diagnóstico perfeitamente lógico como os devaneios irracionais de uns marginalizados apocalípticos. Mas agora, conforme a realidade nos dá um tapa, finalmente repetidamente se assume, embora rápido, que há que admitir a existência de uma pauta regular. Já não se pode seguir olhando para outro lado: a civilização industrial está colapsando.

De fato, já estamos no olho do furacão. Os preços da energia subiram como consequência de já havermos alcançado recentemente o pico na produção global de petróleo e seu consequente e inevitável declínio posterior. Furacões, secas e padrões climáticos imprevisíveis tornaram-se mais frequentes e intensos, fazendo-nos sofrer as consequências do aquecimento global que nós mesmos provocamos. Enquanto isso, a qualidade do solo e da água continua a se degradar e a biodiversidade colapsa com uma taxa de extinção de espécies 10.000 vezes superior a normal. Por sua vez, a tremenda crise nos preços dos alimentos em que se vê mergulhando o mundo neste momento é a indicação mais poderosa até agora de que já não se deve esperar um retorno a situação anterior. Pelo contrario, o que vemos é a batalha final entre a necessidade infinita de crescimento do capitalismo neoliberal e os recursos limitados de um único planeta. E não é com toda a engenharia financeira ou as invenções de tecnologias de última geração que o dinheiro possa comprar que este sistema irá escapar de seu colapso inevitável. Ele atingiu o ponto de inflexão e nós somos a geração a que corresponde à duvidosa honra de viver e morrer em seus últimos espasmos.

Muitos dos autores que participam deste volume [1] comemoraram o aumento da atividade dos anarquistas e suas temáticas, conforme reaparece a oposição ao capitalismo em todo o planeta. Entretanto, quando se tenta dar uma perspectiva internacional ao futuro destas práticas há que enfrentar a presságios negros. Os anarquistas e seus aliados têm de se projetar a um futuro de instabilidade e deterioração crescente, e reinventar suas táticas e suas estratégias a luz das crises convergentes que serão as características do século XXI.

Este artigo parte da trajetória de colapso que se observa no capitalismo em escala global, analisa algumas de suas consequências sociais e as apresenta como desafios das quais tem de enfrentar a futura prática do anarquismo. É evidente que não há sentido em abordar esta tarefa desde um ponto de vista alegadamente neutro que simplesmente não mais identifique as tendências presentes sem fazer recomendações, propostas ou indicações. A partir do momento em que se tenta antecipar e não só prever, se abre espaço para sugerir quais poderiam ser as prioridades para os anarquistas nos próximos anos.

Colapso e Recuperação

Na recente obra de Jared Diamond, Colapso (2005), se analisa a ascensão e o declínio posterior de um grande número de sociedades, algumas muito diversas e separadas cronologicamente entre si como, por exemplo, os assentamentos de vikings da Groenlândia, a Ilha de Páscoa no Pacífico ou Mesa Verde, no sudeste dos Estados Unidos. Em todos estes casos, o ecossistema foi abusivamente explorado e o aproveitamento de seus recursos superou em muito a barreira da sustentabilidade. Uma vez atingido o ponto de não retorno, estas sociedades entraram em colapso e, obviamente, Diamond acredita que algo parecido irá ocorrer com nossa própria civilização global.

Neste contexto, o pico na produção mundial de petróleo representa um ponto evidente de inflexão (para mais informações a respeito e para conferir dados atualizados, você pode consultar http://www.resilience.org), já que sem petróleo a um preço acessível não se pode haver aviação comercial nem cultivos intensivos de trigo ou satélites de comunicações e provavelmente, muito menos arranha-céus. Por exemplo, não seria viável transportar maçãs a 5.000 quilômetros de distância para vendê-las em supermercados inundados de luz artificial, nem importar da China aparelhos ou tecidos a baixo custo. Em particular, o sistema atual de produção de alimentos depende quase por completo do petróleo, desde a fabricação de pesticidas e fertilizantes até a energia necessária para o funcionamento dos sistemas de irrigação e as maquinarias agrícolas, passando pelo embalamento e transporte. Sem o acesso ao combustível barato, nem os cultivos intensivos em grandes extensões nem o comércio global seriam possíveis, assim como muitos outros processos que nós concedemos. De fato, não há mais dúvida alguma sobre a realidade do colapso. A única coisa que ainda se discute é sua rapidez e consequências.

Para entender melhor o comportamento de sistemas complexos em tempos de crise vale a pena prestar atenção na análise que Kay Summer e Harry Halpin fizeram recentemente do equilíbrio dinâmico e as mudanças de fase. Como os organismos biológicos ou a internet, o capitalismo global é um sistema complexo regenerativo que se mantém em um estado de equilíbrio dinâmico, não estático. As constantes entradas desde fora de matérias primas e energia mantém o sistema em fluxo constante, oscilando dentro de certos parâmetros, como se fosse uma bola que sobe e desce em um recipiente. Esta zona de oscilação é também chamada de “zona de influência do sistema”. No entanto, uma grande alteração ou uma pequena, mas do tipo adequado, pode iniciar um ciclo de realimentação positiva que faça com que a bola escape do recipiente até cair em outra zona de influência do sistema […] estas mudanças drásticas de um recipiente para outro, conhecidas como mudança de fase, são muitas vezes precedidas por períodos de “instabilidade crítica”, durante os quais o sistema se vê submetido a tensões significativas. Pode-se dar uma expansão enorme de acordo com um padrão de comportamento aparentemente caótico antes de se estabelecer em um estado novo e mais estável. Estes períodos são conhecidos como “pontos de bifurcação”, já que neles o sistema parece ter a capacidade de ir tanto em uma direção como para outra [2].

Neste sentido, os tempos difíceis em que estamos vivendo representa precisamente um período de instabilidade crítica. Fatores como a escassez de fontes energéticas e as alterações climáticas estão movendo o sistema cada vez mais em direção à borda de sua zona de influência e o colapso resultante seria uma mudança de fase na mesma magnitude que a transição da caça e coleta para a agricultura, ou mais recentemente, desta ao capitalismo industrial.

Claro, esta forma de análise tem suas limitações quando se trata de discutir os detalhes específicos de acontecimentos políticos e sociais, bem como a relevância destes para a prática anarquista. Por um lado, levar o sistema como um todo ignora suas contradições internas e suas divergências, as quais podem ser relevantes para a forma que a mudança de fase se molde socialmente e politicamente nos diferentes países. Além do mais, é provável que a crescente escassez energética chegue a parar e inclusive inverta muitas das transformações associadas com a globalização econômica e cultural, que por sua vez daria lugar a uma fragmentação e a caminhos muito diferentes depois do colapso. No entanto, mesmo com risco de abusar de nossa metáfora, podemos imaginar que a bola que sobe e desce no recipiente está cheia de mercúrio e que ao alcançar o ponto de bifurcação se separa em muitas gotas menores que, por sua vez, caem em zonas de influência conectadas entre si.

Como podemos descrever estas novas realidades políticas? É evidente que ao chegar a este ponto nossa intuição é pouco precisa, mas é plausível sugerir três opções gerais: uma nova ordem social baseada na liberdade e igualdade, diferentes ordens sociais modificadas a partir da atual, mas que mantenham a opressão e a desigualdade, ou o colapso total de qualquer ordem social. Em outras palavras, um comunismo libertário de base, um eco-autoritarismo ou a guerra civil.

Os anarquistas e seus aliados se encontram já profundamente envolvidos em atividades que tentam pender a balança para a primeira zona de influência, algo que será discutido mais adiante. No entanto, neste ponto vamos prestar atenção na segunda opção. Aprender a antecipar a resposta que o poder instituído dará ao colapso social é algo fundamental para os anarquistas e seus aliados, se é que estes querem manter a iniciativa e não apenas reagir a estas medidas, especialmente considerando que as instituições hierárquicas já estão se adaptando à gestão do colapso. Neste contexto a reapropriação continua sendo a estratégia central que estas utilizam para manter sua hegemonia. Por “reapropriação” se entende o processo segundo a qual a sociedade capitalista dissolve as ameaças materiais ou culturais que enfrenta mediante sua recodificação e absorção dentro de sua própria lógica [3].

Hoje em dia está se desenvolvendo sobre as próprias reivindicações ecológicas uma campanha de enormes proporções neste sentido. A primeira vista parecia que, finalmente, as questões ambientais tinham um papel de destaque nos discursos dominantes dirigidos ao público ocidental. Mas, na realidade, a crescente sensibilização no que diz respeito às alterações climáticas e o pico do petróleo, bem como os excessos que levaram a esta situação de crise permanente, vem acompanhada da eliminação total dos aspectos radicais que os movimentos ecologistas haviam associado a suas previsões. Desde a década de 60 do século passado os escritores e ativistas em defesa do meio ambiente têm assistido que:1) existe uma contradição essencial entre a estabilidade ecológica e o crescimento constante, 2) há uma conexão ideológica entre o domínio antropocêntrico da natureza e as relações de exploração que existem entre gêneros e classes e 3), a igualdade e a descentralização são necessárias como parte de uma sociedade genuinamente sustentável. Frente a isso, as elites políticas e econômicas têm tentando, até agora com êxito, promover uma estratégia que levante estes problemas como meramente técnicos ou de gestão, e não sociais. Deste ponto de vista se fomenta a inovação tecnológica e o controle de mercados com o objetivo de gerar a estabilidade suficiente para que o sistema continue operacional. E em consequência assistimos a:

• A normalização da crise ambiental e de recursos, em que as inundações, as extinções e as escassezes são apresentadas como elementos assumptíveis da vida contemporânea.

• A mercantilização da atmosfera, com a introdução de mecanismos de compra e venda de dívidas para controlar as emissões de substâncias poluentes e gases de efeito estufa[4].

• A redefinição da energia nuclear como uma fonte energética limpa e alternativa aos combustíveis fósseis, que conseguiu a incrível manobra de intervir em sua reputação epônimo de destruição [5]. Da mesma forma estão tentando associar a engenharia genética a agricultura sustentável e a gestão de terrenos [6].

• A absorção da consciência ecológica dentro da cultura de consumo de massas mediante a exploração de novos nichos de mercado: comidas e roupas ecológicas, centros comerciais “verdes” e a indústria da compensação das emissões pessoais de CO2 [7].

• Da mesma forma, tem havido uma mudança na política internacional, que passou de promover o desenvolvimento sustentável a se concentrar em planos de mitigação, gestão e controle de riscos [8].

 

Talvez o sinal mais evidente desta estratégia de reapropriação por parte das elites seja a transformação que tem experimentado as cúpulas do G8 em resposta aos rituais anuais de manifestações e distúrbios. Como tem apontando os componentes do Turbulence Collective (2007): o G8 reinventou a si mesmo e passou a ser um espetáculo mediático que se coloca através de campanhas publicitárias como o único fórum capaz de resolver os problemas ambientais. Em outras palavras, quando o G8 se viu atacado, o seu único objetivo passou a ser a recuperação da legitimidade de sua autoridade global. E, de fato, ele aprendeu bem a lição. Em Gleneagles uma grande campanha de ONGs, orquestrada pelo próprio governo britânico, convocou a 300.000 pessoas, não para protestar contra o G8, mas para dar-lhe as boas vindas e fazer pressão a favor do perdão da dívida e o incremento de ajudas à África […] e em Heiligendamn […] o G8 havia ido um pouco mais longe com a intenção de ganhar legitimidade, aparentando dar uma resposta a preocupação generalizada sobre as mudanças climáticas.

Todos estes processos destacam, claramente, uma tentativa de converter os desafios climáticos em novas oportunidades para o capitalismo, através da criação de mercados e instrumentos de governança global. No entanto, este esverdeamento superficial do processo de acumulação capitalista só pode resultar em um aumento das desigualdades, com a aparição de novas reservas fechadas e a imposição de regimes de austeridade aos mais desfavorecidos enquanto que as elites do mundo dos negócios recolhem os benefícios.

No entanto, o capitalismo só pode atrasar até certo ponto o momento em que atingirá os limites objetivos de seu crescimento. Por isso, o fim destas estratégias de reapropriação não pode ser mais do que ganhar tempo, alongar o período em que a crise é ainda algo gestionável para permitir que as instituições hierárquicas se adaptem para sobreviver ao capitalismo. Enquanto o declínio nas fontes energéticas vá requerer necessariamente uma transição a formas de produção local e com o uso mais intensivo da força de trabalho, a verdade é que esta transição também pode ser um processo dirigido por uma elite com o objetivo de criar modelos pós-capitalistas de produção alienada. Estes, ao mesmo tempo em que se adaptam a uma disponibilidade cada vez menor de recursos, continuariam vinculando a capacidade produtiva dos seres humanos a sistemas de cativeiro econômico. Se for bem sucedida em longo prazo, esta estratégia poderia dar lugar à aparição de novas formas de feudalismo em que o trabalho deixaria de ser, pelo menos em parte, uma mercadoria, para ser substituído por formas de servidão, enquanto algumas elites armadas conservariam um acesso privilegiado aos frutos de uns recursos diminuídos [9].

A partir do momento em que a estratégia de reapropriação capitalista só pode chegar até um determinado ponto (e neste sentido não é menos importante o fato de que a experiência acumulada pelos movimentos sociais anticapitalistas lhes permite antecipar suas manobras), é necessário que outra estratégia associada, a repressão, mantenha um papel central na resposta do poder instituído ao colapso. É neste contexto em que as formas pós-modernas de governança autoritária seguirão se aperfeiçoando, desde a vigilância por meios eletrônicos até a criação de bases de dados genéticos, passando pelo crescente poder das empresas de segurança privada e a prevista consolidação da OTAN e a arquitetura da segurança europeia [10].

O contínuo desenvolvimento de novas romanceadas formas de controle social se realizará não só em antecipação a potenciais ameaças geopolíticas, que podem variar desde guerras por recursos até a imigração de refugiados ambientais, mas também como uma forma de conter a dimensão interna, conforme se multipliquem as alternativas autogestionadas de base, organizadas a partir da comunidade e do apoio mútuo, ao contrário da estratégia da elite de contenção e retribuição gestionável.

Consequências Para a Prática Anarquista

Quais implicações têm estes desenvolvimentos para o futuro da prática anarquista? Para poder responder a esta questão devemos começar por classificar as miríades de ações e projetos que desenvolvem os anarquistas em três categorias gerais: deslegitimação, ação direta (tanto criadora quanto destruidora) e o estabelecimento de redes. Enquanto estas categorias não se excluem entre si, uma vez que qualquer feito concreto da prática anarquista pode incluir elementos de mais de uma delas, oferecem uma nomenclatura útil para estruturar a análise. Na hora de considera-las em relação com a discussão anterior se prestará atenção a uma série de prioridades que são relevantes para cada uma delas.

Por deslegitimação se entende a participação dos anarquistas no discurso público, seja verbal ou simbólico, com uma mensagem que se dirija a negar a base de legitimidade das instituições sociais dominantes, assim como corroer os pressupostos da política representativa, a sociedade de classes, o patriarcado, etc. Ao contrário das mobilizações, que tendem a ir contra um conjunto determinado de decisões políticas com o fim de apresentar reivindicações ao governo e as empresas para que mudem de comportamento, as mensagens de deslegitimação se dirigem contra a própria existência das instituições hierárquicas e exigem sua abolição, seja de maneira implícita ou explícita. Por exemplo, a participação de anarquistas nas ações contra a OMC e FMI foi sempre muito além da simples demanda por mudanças nas políticas destas instituições. O que se buscava era usar estas ocasiões para deslegitimar o próprio capitalismo. Da mesma forma, a participação dos anarquistas na oposição a guerra no Iraque pretendia superar a denúncia da violação do direito internacional por parte da administração Bush, ou a duvidosa justificativa de invasão. Pelo contrário se focava, em vez disso, na contribuição da guerra a expansão capitalista, ao silenciamento da dissidência e a “saúde do Estado” em termos gerais.

No contexto da política do anarquismo na era do colapso a deslegitimação seguirá sendo um elemento de maior importância, de maneira crescente, como uma medida de oposição aos esforços do capital para assimilar as crises convergentes do século XXI. Isso tem haver não só com a reformulação dos desafios ambientais como oportunidades de negócios para aqueles que se encontram em condições de tirar proveito, mas também, e talvez seja ainda mais importante, com seu uso como instrumentos para estender o medo na sociedade. Como resultado do declive do Estado de bem-estar e suas funções, tal como se vem experimentando nas décadas passadas, os governos já não podem continuar a basear sua legitimidade em promessas de subsídios, educação ou saúde. Pelo contrário, a justificação de sua própria existência se baseia no compromisso de proteger a seus cidadãos de uma série de ameaças sem dúvida exageradas, que vão desde o terrorismo até a delinquência juvenil. Assim, as alterações climáticas, a escassez de energia e as crises alimentícias podem com facilidade se tornarem novos elementos de seu arsenal. Desde que os discursos alarmistas não estejam apoiados por formas de ação que desacreditem a estrutura existente de distribuição de riqueza e poder, as ameaças ambientais são uma forma adequada de manter assustada a opinião pública e promover sua dependência nas instituições estabelecidas.

Frente a esta campanha de amnésia coletiva induzida, com a qual se deseja desanexar o caos ambiental e social do sistema capitalista que os produziu, os anarquistas e seus aliados se verão obrigados a espalhar a mensagem clara de que não se pode confiar nas mesmas estruturas e forças sociais responsáveis pelo desastre para que elas nos tirem dele. Esta tarefa será cada vez mais difícil, conforme os governos ocidentais avancem em uma direção aparentemente ecologista e socialmente progressiva, como é provável que ocorra nos Estados Unidos e em alguns países europeus no futuro próximo. No entanto, a força dos pontos de vista anarquistas reside em sua capacidade de produzir uma crítica de base que deixe claro que estes tipos de manobras não são mais que estratégias para ganhar tempo.

Porém, neste contexto, teria que se considerar também a possibilidade oposta. Em vez de tomar um rumo aparentemente progressista, em alguns países isso poderia levar a uma ascensão do “eco-fascismo” como resultado do colapso. Este término, “ecofascismo”, se refere aos esforços que se realizam já hoje em dia alguns partidos e organizações de extrema direita para cobrir com um “verniz ecológico” seus projetos racistas e autoritários[11]. Entre estes incluem, por exemplo, recorrer a argumentos sobre a capacidade limitada do ambiente para justificar controles de imigração ou a incorporação perversa do conteúdo espiritual e anti-ilustrado do ecologismo radical a uma ideologia nacionalista integral (basta recordar a exaltação em direção ao nacional socialismo alemão da suposta união mística do povo germânico com sua terra). O eco-fascismo é um inimigo especialmente perigoso porque muitas vezes se apresenta como um confrontador ao capitalismo internacional, embora em última instância, dependa dele parasitariamente[12].

Os anarquistas já se encontram na vanguarda da resistência contra os grupos de extrema direita na Europa e América do Norte e às vezes se veem quase sozinhos quando se trata de lidar com eles nas ruas. Não cabe dúvida de que este aspecto de sua atividade seguirá sendo uma prioridade, mas agora com a renovada dedicação necessária para evitar as tentativas da ultradireita de prosperar à custa de uma instabilidade e insatisfação crescente.

Isto nos conduz a área central da prática anarquista: a ação direta. Este termo se refere à ação realizada sem intermediários mediante um indivíduo ou grupo que usa suas próprias capacidades e recursos para produzir uma mudança em sua realidade, de acordo com seus desejos. Os anarquistas entendem que a ação direta consiste em que cada um se faça responsável da transformação social através da intervenção sem intermediários sobre uma determinada situação, ao invés de se remeter a um agente externo (geralmente o governo) para remedi-la. O mais comum é que este tipo de atuação se entenda apenas desde seu aspecto preventivo ou destrutivo. Por exemplo, se um grupo de pessoas se opõe ao corte de uma floresta, para eles a ação direta implica em agir para evitar que se cortem as árvores (se acorrentando a elas, derramando açúcar no tanque de combustível das escavadeiras ou através de outros atos similares de sabotagem e boicote), em vez de recolher assinaturas para iniciar um processo judicial com o objetivo final de dificultar o projeto de maneira direta ou impedir que siga em frente.

Para além da defesa do meio ambiente é de se esperar que a ação direta em suas formas preventivas ou destrutivas adquira uma importância cada vez maior na área da resistência a novas tecnologias. Em um artigo aparecido neste mesmo volume, Steve Best analisa a dimensão anti-tecnológica do anarquismo contemporâneo. À luz desta contribuição, é de esperar que esta luta adquira uma importância crescente, à medida que a resposta institucional a crise ambiental se concentre na expansão irresponsável da energia nuclear, biotecnologias e geoengenharia, entendidas todas como “ajustes” frente a um ecossistema cada vez mais distanciado de seu equilíbrio. Há que destacar neste sentido que não é necessário compartilhar um ponto de vista anticivilização para apoiar este tipo de ações. Em outras palavras, não é necessário ser um primitivista para ser um ludita.

Em uma época em que a disponibilidade de combustíveis fósseis é cada vez mais reduzida e que as mudanças climáticas devido à combustão destes são cada vez maiores, podemos esperar quase com toda certeza que os governos e as empresas promoverão uma nova geração de centrais nucleares. Como foi mencionada, a indústria termonuclear apresenta agora a si mesma, de maneira generalizada, como uma alternativa limpa frente ao petróleo, o carvão e o gás, algo em que os governos também estão participando. No entanto, a energia nuclear não é mais que uma corrida precipitada para os excessos consumistas do Ocidente e do capitalismo, cujo preço é a contaminação permanente. Ainda que as mobilizações e as ações legais possam alcançar certo êxito na hora de limitar a criação de novas centrais nucleares, não há dúvida de que a ação direta assumirá o protagonismo conforme estas iniciativas atinjam seus limites. É muito provável que os anarquistas e seus aliados tenham que intervir de maneira direta para dificultar a construção destas centrais, e neste sentido poderia surgir então uma nova geração de lutas antinucleares como elementos primordiais das práticas anarquistas. De fato, esta questão já foi tratada nos encontros anuais do Climate Camp, como os que foram realizados no Reino Unido no início e que já se repetiram na Alemanha, Austrália e nos Estados Unidos[13].

Enquanto isso é muito provável que a desfreada crise alimentar mundial dê lugar a uma campanha institucional para fomentar o uso de alimentos geneticamente modificados, sob o pretexto de que eles são uma forma de obter rendimentos maiores. No entanto, o preço é a contaminação do ecossistema e um aumento, se possível, do poder e controle que já tem as multinacionais sobre as vidas dos agricultores. A resistência anarquista contra os cultivos geneticamente modificados já teve seu ápice nos finais da década de noventa do século passado, especialmente em países europeus, que ao contrário dos Estados Unidos, não se viram inundados tão rapidamente por estas produções em escala comercial. Neste sentido, os anarquistas tem desempenhado um destacado papel em campanhas contra esta agricultura, tanto de natureza informativa quanto em ações diretas, e em solidariedade com movimentos campesinos da América Latina e do Sudeste Asiático. Pode muito bem ser que a sabotagem destas produções volte a assumir um papel predominante na prática anarquista, inclusive ao mesmo tempo em que se faz propaganda a favor de alternativas mais sustentáveis.

Em último lugar, a nanotecnologia, que é a manipulação direta de átomos e moléculas, recebe uma atenção cada vez maior por parte dos ativistas como a forma mais recente de ataque tecnológico contra a sociedade e a biosfera. Com esta tecnologia se aproveitam as alterações que se dão nas propriedades das substâncias quando se reduzem a dimensões microscópicas, o que permitiu que uma série de novos produtos se encontrasse já disponíveis no mercado [14]. A nanotecnologia não é somente uma ferramenta que consolida o poder das multinacionais em todos os setores, mas é também o cenário da possível convergência da biotecnologia, a informática e a neurociência. Algo que destruiria a barreira entre o vivo e o artificial na barreira atômica.

De forma mais imediata, a nanotecnologia faz possível certas iniciativas que se propõem como parte da crescente ameaça da geoengenharia, que é a manipulação intencional em larga escala da biosfera para produzir uma alteração no clima, principalmente para compensar os efeitos não desejados de outras atividades de origem humana [15]. Entre as muitas ideias que se estão discutindo na atualidade figuram algumas como fertilização dos oceanos com nanopartículas de ferro para estimular o crescimento de fitoplâncton para que este absorva o dióxido de carbono da atmosfera, o uso de membranas construídas com nanocompostos para comprimir e armazenar este gás em minas abandonadas, poços de petróleo em exploração ou cavernas no fundo do mar, ou também spray de aerossóis com compostos sulfatados na atmosfera para refletir a luz solar.

De fato, já se deram passos nos tribunais internacionais para frear estas medidas. Por exemplo, os governos signatários da Convenção Sobre Biodiversidade da ONU (CBD, em sua siga em inglês) receberam pressões em meados de 2008 para alcançar de maneira unânime o acordo de uma moratória de fato que afetará a um amplo aspecto de atividades de fertilização oceânica, algo que foi alcançado com êxito. No entanto, estas medidas abrangem apenas um número limitado de iniciativas e são de difícil aplicação. Por exemplo, uma empresa de fertilização oceânica, Climos Inc., com sede em São Francisco (Estados Unidos), parece crescer com força contra o consenso internacional. Portanto, é provável que a ação direta se torne a única forma de evitar este tipo de perigosas apostas que comprometem a estabilidade dos sistemas do planeta e que é parte da mesma lógica que deu como resultado sua desestabilização em tão elevado grau.

Além dos aspectos preventivos e destrutivos da ação direta, o termo também pode se referir a iniciativas criadoras e construtivas, como a produção autogestionada de alternativas reais ao capitalismo. Os esforços neste sentido são experimentos da utopia em construção, uma política prefigurativa que busca a construção de um novo mundo dentro da pele morta do antigo. Como observaram os autores do Emergency Exit Collective (2008) já existem numerosas iniciativas deste tipo por todo o planeta, muito mais das quais se devem os próprios anarquistas: desde formas novas de democracia direta que se dá em comunidades indígenas como El Alto, na Bolívia, ou em fábricas autogestionadas no Paraguai, até os movimentos dos subúrbios na África do Sul, cooperativas de agricultores na Índia, ocupações na Coreia, experimentos de permacultura na Europa ou a “economia islâmica” que se dá entre os habitantes pobres das cidades no Oriente Médio. Temos testemunhado o desenvolvimento de milhares de formas de apoio mútuo, associações que compartilham o desejo comum de constituir uma ruptura prática com o capitalismo e que, mais importante ainda, apresentam a possibilidade de criar novas heranças comuns a nível planetário.

Através da recuperação desta herança comum os habitantes do planeta estão cada vez mais capazes de se libertar da dependência do capitalismo e de esvazia-lo de conteúdo desde seu interior. Nos próximos anos a criação de alternativas autogestionadas baseadas na comunidade será cada vez mais urgente, conforme a população seja confrontada com as consequências da diminuição das fontes de energia e com os efeitos das alterações climáticas. Na verdade, pode ser que estes tipos de práticas constituam nossa única esperança de superar o colapso de forma que resulte em realidades sociais libertadoras e preservadoras da vida, ao invés de pesadelos autoritários ou de pura destruição.

Será cada vez mais importante para os anarquistas e seus aliados participar da construção de alternativas independentes e sustentáveis que promovam a autossuficiência das comunidades. O crescente interesse entre os anticapitalistas pela permacultura, a construção de técnicas naturais ou a ecologia prática representa a um movimento encorajador nesta direção (você pode consultar um endereço muito útil a respeitowww.permacultureactivist.net). A ação direta construtiva deste tipo é particularmente relevante nos países onde existe um capitalismo avançado, que é onde habitam a maioria dos anarquistas, já que é nestas sociedades onde os laços comunitários mais se degradaram e onde se perdeu mais as habilidades manuais básicas. A combinação de autossuficiência produtora e relações sociais igualitárias, tanto em projetos urbanos como rurais, pode representar uma forma muito poderosa de propaganda pelo ato, ao propor modelos de funcionamento atrativos que outros possam copiar. Estes modelos não apenas servem para se capacitar, mas também avançam em direção a segurança alimentar e energética, bem como em direção à independência de um mercado de trabalho cada vez mais precário e que já é pobre de redes sociais de apoio.

E é neste ponto em que se torna importante o último aspecto da prática anarquista, a criação de redes. Tanto em suas iniciativas destrutivas como construtivas de ação direta, os anarquistas atuam dentro de um âmbito social muito mais amplo e suas chances de êxito dependem muito da solidariedade e a cooperação com grupos que estão à margem do núcleo central de suas próprias redes. Neste contexto, se espera que a lógica cultural da criação de redes, que se constitui um dos aspectos centrais da prática política dos anarquistas, siga dando frutos, conforme estes e seus aliados sigam fortalecendo laços com um número crescente de comunidades em luta, desde pessoas migrantes e refugiadas até as classes médias em queda livre.

Claro, isso não quer dizer que os anarquistas devam ocupar o lugar de uma vanguarda que guie as massas para a revolução, mas ao invés disso que possam atuar como uma retaguarda, cuja única intenção seja a de proteger e fomentar a autonomia e a horizontalidade dos movimentos emergentes de resistência. No contexto da construção de uma nova sociedade, isso significa abortar as tentativas de eliminar a autossuficiência local e integrá-la em um quadro capitalista e/ou autoritário e, uma vez que se tenha êxito nisto, defender as comunidades autogestionadas quando se encontrarem atacadas ou marginalizadas de qualquer maneira.

Em última instância, no entanto, não há garantia alguma. A atuação anarquista será necessária desde todos os pontos de vista, inclusive, ou talvez mais, depois do colapso do capitalismo global. Como diz Noam Chomsky (1986), o anarquismo é uma luta sem final, já que qualquer progresso em direção a uma sociedade mais justa leva por sua vez a uma percepção e compreensão de novas formas de opressão que podem ter permanecido ocultas para a prática e a consciência tradicional. Mesmo no cenário mais favorável, os anarquistas terão que enfrentar a reaparição dos padrões de dominação dentro das comunidades e/ou entre estas, embora houvesse chegado a um ponto em que houvessem sido superados de maneira consciente alguma vez. A vigilância constante é o preço da liberdade.

Notas:

1. Nota do tradutor: o artigo foi inicialmente publicado como um capítulo do livro coletivo.

2. (Summer y Halpin, 2007, 89)

3. (Internacional Situacionista, 1966)

4. (Bachram, 2004)

5. (Nuclear Energy Institute, 2007)

6. (Dewar, 2007)

7. (Monbiot, 2007)

8. (Welsh y Blüdhorn, 2007).

9. (Caff enztis, 2008)

10. (Gipfelsoli, 2008)

11. (Zimmerman, 1997)

12. (Hammerquist y Sakai, 2002)

13. ver www.climatecamp.org.uk

14. (ETC Group, 2003)

15. (ETC Group, 2007)

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