As lições da insurreição da Cabília

Por Carlos Calvo Varela, publicado en praza.gal

Imaginai que da noite para a manhã a Galiza se levanta numa insurreição que ataca todas as instituições que representam o Estado, a começar polas que monopolizam a violência, organizando-se espontaneamente em paróquias –“preterismo!”, berra a progressia- geridas em concelho aberto, confederadas em coordenadoras no nível comarcal e nacional; tudo poder que não emane diretamente das comunidades deixa de ser reconhecido; todos os partidos são expulsos do movimiento, mesmo aqueles políticos “cercanos” que pretendem recuperar a inocência nas manifestações. Pois bem, isto, exatamente, foi o que sucedeu em 2001 na Cabília.

Em vésperas da celebração bereber da Primavera um joven é assassinado na gendarmaria de Beni Duala. Um caso mais como outros muitos, mas o caso que se torna a pinga que derrama o copo, ese ponto em que os povos saem da insubmissão e já não suportam mais nada do que até ese momento era ordinário. O levantamento desborda a Cabília abrangendo todo o estado algeriano. Quarteis, tribunais, bancos ou sedes de partidos são atacados, recordando que nos últimos quarente anos o único serviço público do Estado que conheceu o povo foi a tortura e o espólio. A resposta à repressão organiza-se revivindo a instituição tradicional da tajmat, assembleia de aldeia ou bairro que governa a comunidade soberana chamada aarch. Talvez por isto, a insurreição da Primavera Negra passou totalmente desapercebida à esquerda ilustrada europeia; lá não havia siglas, -ismos, líderes nem nenhuma dessas categorias que organizam a nossa perceção política.

Controlar a representação, conjurar o poder

Após o colonialismo Algéria estivo sempre gobernada polas linhagens de militares que aderiram à revolução na última hora, desertando do exército francés quando a derrota era eminente. Derrocaram a via da Ben Bella e bloquearam os intentos autogestionários dos primeiros meses da independência para impor um monolítico nacionalismo de Estado, de ideología árabe-mussulmã, que não reconhecia o povo amazigh. Na genealogia destes generais está a formação na KGB o una Academia Fauzé, que os deixará mais do que preparados para exercer a asfixiante repressão interna. O levantamento de 2001 é contra esas elites mafiosas e a sua ditadura, e não por acaso as insurreitas escolhem para manifestarem-se, ao berro de “1956-2001, a luto continua”, o dia e o lugar em que quarenta e cinco anos antes Abbane Ramdane exigirá aos burócratas do FLN a democratização do movimiento independentista.

O contundente rechaço ao Estado extendia-se aos partidos maioritários na Cabília, a União pola Cultura e a Democracia (RCD) e a Frente de Forças Socialistas (FFS). O movimiento blindou-se férreamente perante os riscos de cooptações partidárias ou da emergência de um corpo de notáveis com pretensões de os liderar, até o ponto de a Coordenadora de Wilaya (Prefeitura) de Tizi Uzu aprobar um exemplar código de honor dos delegados para impossibilitar dirigismos ou para as tentações de reducir a insurreição a um valor-de-cámbio para aspirantes a cargos eleitos.

Vetam-se os partidos, ao jeito dos piqueteros argentinos, e proibem a apropriação partidária da memória dos mártires e qualquer forma de monopolização dos capitais simbólicos do movimiento. Também desconfiam dos regionalistas que apenas pretendiam “berebizar” o regime. “Em nenhuma outra parte como na Cabília está o povo chamado a intervir de uma forma tão direita nas questões públicas”, escrevera Daumas, e de facto, em 2001, apoiaram-se na tradição. Seguindo o castigo consuetudinário, o delegado que tomava decissões à margen da assembleia –ou dava entrevistas em nome do movimiento- era posto em quarentena junto com o gendarme e demais autoridades. Enta cheij, ana cheij, “ti chefe, eu chefe”, diziam antaño a quem pretendia impor a sua autoridade ao resto.

A volta dos aarch

O alto nível de autoorganização atingido através dos aarchs foi, paradoxalmente, o mais criticado pola esquerda progresista, que via nesta instituição democrática tradicional uma imagem pitoresca e folclórica do país atrassado. A imprensa francesa traduzia com evidentes intenções despetivas aarch por “tribo”, como despolitizando a revolta para reduzi-la a uma exótica luta de clãs. Pola contra, resultam mais clarificadoras as declarações ao jornal Libération de jovens de Alger que invejavam o “arcaísmo” dos seus companheiros amazighs: “Eles tenhem sorte. Na Cabília nunca estão sozinhos. Tenhem a sua cultura, as suas estruturas. Nós vivemos em médio de chivatos e de posters de Rambo”, afirmava um “Alger não é a Cabília”, escusava-se um moço árabe, “ali é duro mas todos se conhecem, estão unidos, com uma cultura, umas estruturas fortes que resistirom a pesar da guerra. Nós, aquí, por toda educaçom política temos as telenovelas egípcias. Tras anos de comedura de coco, de boletins do GIA que pareciam ciencia-ficção, temos palha no cerebro”. Esses costumes dos que riam os europeus eran vistos polos seus companheiros árabes que desejavam o contágio de insurreição como uma ventagem. Para Robert Vasseur, “as bases de retaguarda materiais e culturais, que permitem uma reapropriação rápida da existência e uma rutura radical com o sistema –uma revolução- existiam”. Mas na realidade os aarch tãopouco ressucitaram em 2001, pola singela razão de que nunca chegaram a desaparecer. Essas “pequeñas repúblicas democráticas das aldeias da Cabília”, como as descrevera o historiador Ch.-A- Julien, humildes e nunca formalizadas como História, virom porém como se esfarelavam perante elas sucessivos impérios. A estratégia de desmantelamento dos aarchs ê-nos familiar: se em 1848 uma real orden española ditaminava “inadmisible el principio de que los vecindarios por sí y con independencia absoluta de los Ayuntamientos, y del Gobierno puedan disponer omnímodamente de dichos montes llamados del común de vecinos”, em 1863 um senadoconsulto francés qualificaba esta expropriação do comum, base material das democracias aldeas, como “a máquina de guerra mais eficaz que se poda imaginar contra o estado social indígena”. Contudo, a tajmat continuou a gobernar mesmo depois do fracasso da Insurreição de 1871: as autoridades locais de administração oficial submetiam-se secretamente ao que decidia a tajmat, mantendo as apariências de respeitar o sistema francés.

Quanto ao valor que se lhe dava a esta tradição democrática na política moderna, em 1937 Amar Imache, secretário geral da Estrela Norteafricana, escrevia orgulhoso: “Ocultava-se conscientemente que o primeiro governo com forma republicana e democrática instituiu-se na Cabília, enquanto que na França e outros lugares se ignoravam estas palavras”. Os burocratas da FLN, no entanto, cunharam a acusação ritual de “berbero-materialismo” contra esta tradição. Já em 1963, o FFS reconhece nos estatutos da sua fundação a importância da tajmat como “instituição democrática ainda viva nos nossos dias e que forma parte do nosso património nacional mais engebre e mais glorioso”, sem que isto tivesse muitas mais consequências práticas do que a igualmente ritual apelação do nacionalismo galego à paróquia –que, após a guerra, já nem incluia o concelho aberto como forma de autogoverno. Mas trás a Primavera Bereber de 1980, acurralados pola repressão, muitos jovens do movimento cultural amazigh só tenhem um espaço onde militar: os aarch. Neles implicam-se na gestão direta das suas aldeias e bairros, educando-se na participação horizontal e assemblear. “O mérito destes regressos ao pasado que efetuam as revoluções quando ressucitam velhas formas de comunidade” –diz Jaime Semprún, autor de umaApologia pour l’Insurrection Algérienne (*) de onde estou a tirar os dados- é volver a encontrar mais do que se tinha perdido. A principal maldição que açoitava a democracia comunitária das aldeias era evidentemente o seu isolamento, que lhe vedava qualquer iniciativa histórica. E isso é justo o que desaparece em médio da comoção geral da sociedade algeriana. “Foi justamente isso o que sucedeu, na Galiza, quando o movimento agrarista dera uma dimensão nacional ao auto-governo paroquial.

As razões do fracasso

Aquela insurreição que marchara sobre Alger nos primeiros dias, e que boicotava com um sucesso rotundo as eleições estatais –apenas 2% de participação na Cabília- e municipais, remata em janeiro de 2005 assinando com o Estado uma suposta assunção das reivindicações dos insurretos, maquando grotescamente a evidencia da derrota. Mas quais foram as razões deste fracasso?

A primeira grande eiva da revolução dos aarchs é evidente, apenas há que ver as fotografias das tajmats: os homens monopolizavam a palabra do movimento, tanto que até a coordinadora interwilayas chamou a solventar ese “ponto débil” como lhe chamavam, sem obter muitos resultados.

Contudo, esta acusada composição masculinista não basta para explicar o colapso dessa revolta que pretendia democratizar radicalmente o país através da autoorganização horizontal. O decisivo foi o enroque do movimento no resistencialismo, recusando –por entendê-lo uma traição ao seu apoliticismo- criar uma institucionalidade própria que lhes permitisse levar a iniciativa e demonstrar, como propunha a Coordenadora InterComunal de Béjaïa, “que o movimento cidadão pode transcender a insurreição e que a população não se contenta com protestar contra o que rejetia, senão que começa a construir a vida que deseja e se prepara para defendê-la”. As eleições municipais de 2002 puderam ser a última opção para que a rede de aarchs assumira a autogestão total esvaziando a administração local do Estado, mas o próprio documento preparatório de boicote reafirmava “que não podia aceitar-se nenhuma forma de substituição das instâncias eleitas”. A rejeição a toda forma suspeitosa de “poder” ou “política” era tal –e também foi chave para que o movimento fosse irrecuperável- que deixou a insurreição sem capacidade de maniobra tática e, o que é pior, sem a iniciativa. Após a temperã aprovação da Tábua Reivindicativa de El Kseus, o movimento não se permitiu reajustes estratégicos, nem o seu “transpartidismo” se atreveu a uma política mais lá dos partidos, aguardando uma negociação bilateral com o Estado que não se produziu até à claudicação por desgaste; o poder não tinha mais que contemporizar – mesmo que fossem quatro anos- e esperar ao colapso interno do movimento que não se decidia a asumir a soberania para além da autodefesa.

Por último, quiçá chame a atenção a esperança que um movimento tão radical no “Estado de Direito” occidental. Antes de julgá-lo comodamente desde aqui como uma ingenuidade, haveria que ter mui em conta a situação da Algéria, a violência quotidiana e a enxurrada de assassinatos políticos entre os que decorria –decorre- o ativismo político. Igualmente o apego ao pluripartidismo, que mitigava o caráter contra-partidário do movimento, é bem compreensível ao ter em conta que este foi um direito conquistado com muito sacrifício em 1988 –e já se sabe o que sucedeu quando em 1991 o povo votou no partido “equivocado”…-; ainda, o terrorismo islamista era o ruído de fundo do processo, com a guerra ainda fresca.

Referência

*Jaime Semprún, Apologie pour l’Insurrection Algérienne, Paris, Editions de L’Encyclopédie des Nuisances, 2001; a versão em espanhol, ampliada, contém documentos e um epílogo de Robert Vasseur: Apología de la Insurreción Argelina, Bilbau, Muturreko Burutazioak, 2009, (trad. De Javier Rodríguez Hidalgo).

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