Terroristas irracionais? A verdade sobre o Estado Islâmico é muito pior

Recolhemos do Diário Liberdade a tradução deste artigo de Scott Atran publicado en The Guardian:

“É apenas o início da tempestade”, disse o Estado Islâmico. E não é exagero. Pois diante das cenas caóticas nas ruas de Paris, a temerosa reação provocada por esses ataques é exatamente aquilo que o EI planejara e desejara. Quanto maior a reação contra os muçulmanos na Europa, e quanto mais o Ocidente se envolve em ações militares no Oriente Médio, mais felizes ficam os líderes do grupo. Porque essa é a principal estratégia dessa organização: procurar, criar e gerenciar o caos.

“Eles lidam com o caos, mas trabalham a partir de um roteiro. E a nossa falta de entendimento sobre isso está sendo extremamente custosa”.

Há um livreto, um manifesto, chamado O gerenciamento da selvageria / do caos, um tratado escrito há mais de uma década por alguém chamado Abu Bakr Naji, da ala mesopotâmica da al-Qaeda, que, posteriormente, tornar-se-ia Estado Islâmico. Pense no horror de Paris e considere, então, alguns de seus principais axiomas:

Atinja alvos frágeis. “Diversifiquem e ampliem os ataques vexatórios sobre o inimigo cruzado-sionista em qualquer lugar no mundo islâmico e até mesmo fora dele se possível, procurando, assim, dispersar os esforços de alianças do inimigo e sugar suas forças até extenuá-los ao máximo”.

Ataque quando as vítimas potenciais estão desprotegidas. Semeie o medo em populações inteiras, destrua economias. “Se um resort turístico patrocinado pelos cruzados (…) é atingido, todos os resorts turísticos em todos os estados do mundo terão de ser aparelhados com segurança com uso adicional de força, dobrando a quantidade normal gasta e, sendo assim, aumentando os seus gastos”.

Considere os relatos que sugerirem que um jovem de 15 anos estava envolvido na atrocidade de sexta-feira. “Capture a rebeldia dos jovens, sua energia e seu idealismo, assim como sua prontidão para o autossacrifício, enquanto os tolos pregarão por ‘moderação’ (wasatiyyah), segurança e prevenção de riscos”.

Pensem na forma como o grupo aprecia as relações entre causa e efeito. “Trabalhe para expor a fraqueza do poder centralizado dos americanos de tal forma que eles abandonem a guerra psicológica midiática e a guerra por procuração até que eles lutem diretamente contra nós”. O que provavelmente vale para França, o Reino Unido e outros aliados.

Isso é um panfleto de recrutamento. A zona cinzenta, por sua vez, um editorial de 10 páginas na revista online do EI, Dabiq, no início de 2015, descreve a obscura área ocupada pelos muçulmanos, que são divididos entre ‘bons’ e ‘maus’, entre o ‘califado’ e os ‘infiéis’, uma divisão que a “abençoada operação de 11 de setembro” tornou evidente. Citando Bin Laden, o texto diz: “O mundo hoje está dividido. Bush falou a verdade quando disse ‘ou você está conosco, ou está com os terroristas’, sendo que os verdadeiros terroristas são os cruzados ocidentais”. Mas o que foi dito agora é que “a hora chegou para um outro evento que (…) trará divisão ao mundo e destruirá as zonas cinzentas”. Os ataques em Paris foram a última parte dessa estratégia, mirando na Europa, assim como os recentes ataques na Turquia. Muitos e muitos outros ainda irão acontecer.

Com isso em mente, torna-se imprescindível entender o que está acontecendo.

Esse ressuscitar do sunismo radical árabe, do qual o Estado Islâmico atua como ponta de lança, é um movimento contracultural revolucionário e dinâmico de proporções históricas mundiais, sendo a maior e mais diversificada força militar voluntária desde a Segunda Guerra Mundial. Em menos de dois anos, eles criaram um domínio de centenas de milhares de quilômetros quadrados com milhões de pessoas. Apesar de serem atacados por todos os lados por inimigos internos e externos, eles não foram enfraquecidos em nenhum nível perceptível, inclusive, enraizando-se cada vez com mais força em áreas sob seu controle e expandindo sua influência ao aumentar seus lucros em operações ao longo da Eurásia.

Tratar o Estado Islâmico simplesmente como uma forma de “terrorismo” ou “extremismo violento” acaba mascarando a ameaça. Reduzi-los ao “niilismo” é uma resposta perigosa e ingênua que acaba evitando qualquer tentativa de compreender e lidar com isso, com a sua profunda e fascinante missão moral de mudar e salvar o mundo. Quando constantemente se refere ao EI como um grupo que quer retornar à Idade Média, isso faz tanto sentido quanto dizer que o Tea Party quer que tudo volte a ser como era em 1776. A verdade é mais complicada. Como afirmara Abu Mousa, assessor de imprensa do EI em Raqqa: “Nós não estamos mandando as pessoas de volta ao tempo dos pombos-correios. Pelo contrário, nós vamos nos beneficiar do desenvolvimento. Mas de uma forma que não contradiga a religião”.

O EI almeja preencher o vazio e qualquer que seja o estado de “caos” ou “selvageria” (attawahoush) que exista, tanto na Ásia Central como na África. E onde houver caos insuficiente nas terras dos infiéis, chamada de “A Casa da Guerra”, o EI procura criá-lo, tal como ocorre na Europa.

Ele conscientemente explora a desanimadora dinâmica entre a ascensão do islamismo radical e o renascimento dos movimentos xenófobos étnico-nacionalistas que gradualmente vão cooptando as classes médias – que são o suporte principal da estabilidade e da democracia – na Europa de uma forma que lembra o trabalho de fascistas e comunistas na democracia europeia dos anos 1920 e 1930. O fato de que a taxa reprodutiva da Europa é hoje de 1.4 filhos por casal – e que, portanto, exige que a imigração seja cada vez maior para garantir uma força de trabalho produtiva que possa sustentar o padrão de vida dessa classe média – é uma benção para o Estado Islâmico, pois, ao mesmo tempo, nunca houve tão pouca tolerância à imigração. E aí se encontra o tipo de caos que o EI está muito bem posicionado para explorar.

Como afirmei em meu depoimento ao comitê de assuntos militares do Senado americano e, anteriormente, ao Conselho de Segurança da ONU: o que inspira os mais descompromissados e letais atores no mundo de hoje não é o Qu’ran, ou quaisquer ensinamentos religiosos. É uma excitante causa que promete a eles glória e reconhecimento. A jihad deve ser entendida como um empregador igualitário e justo: fraternal, midiática, gloriosa, cool – e persuasiva.

Uma pesquisa da ICM em julho de 2014 sugeriu que mais de um a cada quatro jovens franceses entre as idades de 18 a 24 anos têm uma opinião favorável sobre o Estado Islâmico, ainda que somente 7 a 8% da França seja muçulmana. Trata-se de algo relacionado à comunidade em que vivem. Mais do que três a cada quatro dos recrutas do EI que vêm de fora o fazem por conta de laços de amizade e familiares. Muitos são jovens, passando por fases de transição: são imigrantes, estudantes, desempregados, desamparados, que deixaram recentemente suas famílias. Eles então se juntam a um “bando de irmãos (e irmãs)” prontos para se sacrificar por algo significativo.

Nós temos “contra narrativas” sem apelo e sem êxito. A maioria delas são negativas: acreditam em mensagens de massa para essa juventude ao invés de criar diálogos íntimos. Como um antigo ímã do Estado Islâmico me disse: “Os jovens que vieram até nós não o fizeram para serem ‘doutrinados’ como se fossem crianças tolas; eles estão aqui, em sua maioria, mostrando-se compreensivos e cheios de compaixão, mas estão desencaminhados”. E, novamente, percebe-se o método de aproximação do Estado Islâmico.

Ansiosos por recrutar, o grupo gasta centenas de horas tentando trazer para suas fileiras um único indivíduo, tentando aprender como seus problemas pessoais e seus pesares podem ser encaixados num tema universal que é a perseguição a todos os muçulmanos.

Falta a uma aproximação contrarradicalização um aspecto positivado, com apelo empoderador e vencedor diante da visão da História apresentada pelo Estado Islâmico; e falta também a aproximação personalizada e íntima a esses indivíduos ao redor do mundo.

O primeiro passo para combater o Estado Islâmico é entendê-lo. Nós ainda não conseguimos isso. E nosso fracasso vai nos custar muito caro.

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