[France] Talvez perguntar “porquê?” cidadáns pagam pela política do seu governo

Recolhemos do Jornal “Mudar de Vida” este artigo de Manuel Raposo:

siria Tal como os norte-americanos em 2001, os espanhóis em 2004 e os britânicos em 2005, os franceses pagaram amargamente, em 13 de Novembro passado, a política de terror militar praticada pelo seu próprio governo. É esta a realidade crua que ninguém parece querer reconhecer.
Afirmar, como fez o presidente francês, com ar compungido, que o alvo dos terroristas do Estado Islâmico são a Liberdade e a Democracia na Europa é uma mistificação destinada a manter a população francesa e europeia silenciosa e inoperante diante das agressões e do terror de estado levados a cabo pelas potências ocidentais contra o mundo árabe e muçulmano. A boa questão a colocar, neste caso, é justamente a inversa: saber se as intervenções militares francesas dos últimos anos contribuíram para levar a democracia e a liberdade à Síria, à Líbia, ao Mali e por aí fora.

“Estamos em guerra”, disse François Hollande, secundado por todos os representantes do poder em França, demonstrando assim que a via que está determinado a seguir é a do reforço da violência. Com isso — que repete tal e qual o pretexto de Bush em 2001 para invadir o Afeganistão e declarar um estado de “guerra global” —, Hollande não só proclama o “direito” do imperialismo francês a agredir quem quer que seja, como cria cobertura no plano interno para limitar, precisamente, a liberdade e a democracia de que se mostra em palavras tão extremoso defensor.

Eis como, fazendo-se vítima, o poder que se gaba de ser democrático, liberal, fraterno, vai abrindo caminho à extrema-direita, quando não assume ele mesmo o papel da extrema-direita.

A onda de condenação dos atentados que, por todo o lado, os agentes políticos do poder levam a cabo — servidos por meios de comunicação aos quais as lições do Afeganistão, do Iraque e da Líbia não ensinam nada — esconde uma coisa simples: a população francesa sofreu uma retaliação e não um “primeiro ataque”.

O “primeiro ataque” foi sendo sofrido ao longo de anos pelas populações africanas e médio-orientais. A França foi líder na agressão que desmantelou a Líbia, financia e apoia militarmente a bandidagem que destroça a Síria, participou directamente no esforço imperialista para jugular as Primaveras Árabes de 2011, tem tropas e bases militares na África Subsariana, gizou planos (com a UE) para “resolver” a questão dos refugiados oriundos da costa líbia a tiro de canhoneira.

Mais. A França, como toda a União Europeia e o Ocidente, mesmo quando não sujam directamente as mãos, pagam a quem lhes faça o serviço. Quem são os seus agentes no caso do Norte de África e do Médio Oriente? São esses exemplos de democracia e liberdade que dão pelo nome de Israel, Arábia Saudita, Turquia, Egipto, Catar… e um número incontável de bandos de mercenários pagos pelos orçamentos de Estado europeus e norte-americano (dinheiro “do bolso dos contribuintes”, já agora).

Serão precisas mais razões para que as populações assim tratadas odeiem a França (ou os EUA, ou o Reino Unido)? Que motivos têm árabes e muçulmanos vitimados pelo imperialismo francês para apreciar a democracia praticada em França dentro de portas, se essa mesma democracia e a liberdade de que os franceses gozam se traduzem, fora de portas, em agressão militar, sem que a população francesa a isso se oponha? Que lição de democracia e de liberdade pode a França dos senhores Hollande, Valls, Sarkozy ou Le Pen dar aos árabes, aos muçulmanos e aos africanos impedidos, manu militari, de gozar da sua própria liberdade e de determinar o seu próprio destino?

O terror é uma arma de guerra. Destina-se a desmoralizar e a enfraquecer o inimigo, minando-lhe os apoios. A sua lógica é: quem mais aterrorizar, ganha. Mas também aqui há que pesar os factos: entre a destruição maciça e o incontável número de vítimas causadas pelas intervenções militares imperialistas, e os efeitos dos atentados em Paris (ou mesmo em Nova Iorque) — a desproporção é gritante. Basta lembrar, de novo, o Afeganistão, o Iraque, a Líbia, a Síria, o Iémen, a Palestina onde milhões de pessoas (milhões!), simplesmente foram mortas, estão deslocadas ou não têm meios de vida.

Sem colocar em cima da mesa estas questões, como sucede na propaganda do poder e nos meios de comunicação, toda a discussão é conduzida para uma argumentação cretina sobre gente-má contra gente-boa, fanáticos contra tolerantes, islão contra cristandade, barbárie contra civilização — deixando tudo por explicar, como convém ao poder.

Justamente ao contrário do que pretendem os Hollande, os Obama, os Cameron, as Merkel, a “firmeza” contra o terror de que querem dar provas é, ela mesma, a coveira das liberdades — precisamente porque essa “firmeza” é, nada mais, um passo adiante na sua política de agressão, agora sob a justificação cínica do combate ao terror, como quem exige carta branca. Por isso ela é caldo de cultura óptimo para a extrema-direita e um sinal mais da decomposição dos regimes democráticos.

Se as questões em jogo fossem devidamente equacionadas, talvez se percebesse por que razão pessoas comuns são chacinadas em atentados como o de Paris — quais as motivações destes atentados, o que lhes está na base. Talvez então, em vez de tanta gente colocar, tão automaticamente, bandeirinhas francesas no Facebook, houvesse mais preocupação em perguntar “porquê” e em questionar os argumentos do poder.

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