[Itália] Autogestão: Restaurantes populares

Colamos este artigo assinado por Flavia Giampetruzzia facilitado pela A.N.A. via e-mail:

1932402_553419304801840_3878405847460060053_n [Uma associação de Livorno, nascida de um movimento de desempregados e trabalhadores precários, gerencia uma cantina autogerida desde novembro, chamada “Polpetta”. O cardápio é vegano, oferecendo uma refeição completa por 5 euros e grátis para quem não tem nenhum trabalho. O espaço também abriga uma escola popular e um CineClub, em colaboração com outros espaços.]

O cardápio de hoje inclui como entrada uma pasta “zen” ao molho, e como segundo prato uma torta salgada de brócolis, espinafre refogado, húmus e salada e leite de soja cremoso com cereais e framboesas. Quem se senta em uma mesa do restaurante popular “Polpetta” na via dei Mulini 27a em Livorno, sabe que pode jantar pelo preço de cinco euros, e se você está desempregado tem direito a uma refeição grátis.

Ao entrar nas instalações do restaurante, nos encontramos em um espaço simples e acolhedor: uma grande sala com um balcão, do qual os pratos são servidos, e outro com mesas; uma área para crianças, outra para leitura e jogos de tabuleiro. Pequenas pinturas nas paredes e um grande mural: representa um polvo laranja decorado com cílios longos, que se tornou uma “polva” (jogo de palavras para designar polvo fêmea) – eleita símbolo do restaurante.

11828561_693351840808585_1323266535362336915_n “Este espaço historicamente sempre foi dedicado ao restaurante popular” – diz Arianna Sirigatti, voluntária do “Cantina Popular Autogerida”, uma associação cultural que gerencia o restaurante desde novembro de 2014: no final dos anos 90 a gestão foi pública, depois foi passada para a Cooperativa 8 de março que fechou o restaurante em 2011. Desde então, este espaço, pertencente a SPEL (Sociedade Porto Industrial de Livorno, em 61% pública) permaneceu abandonado como o resto do edifício adjacente, até ao final de 2013.

“Éramos um grupo de cerca de 40 pessoas, constituídas em uma Comissão de trabalhadores precários e desempregados, e após várias reuniões e discussões com outros comitês do mesmo território, decidimos ocupar este espaço, com a ideia de devolvê-lo para a cidade”, diz Arianna.

No prazo de três meses, os “ocupantes” obtiveram um contrato de empréstimo para uso: A SPIL declarou que não há planos imediatos para o espaço. “Enquanto isso, continua Arianna, nos estabelecemos como uma associação cultural com o nome de ‘Cantina Popular Autogerida’, formada a partir de um núcleo duro de cerca de 15 voluntários de 25 a 43 anos. Temos todo o necessário para obter a certificação HACCP, que permitiria que fiquemos aqui com segurança, e um ano depois da ocupação nasceu o ‘Popetta’: o nome recorda o principal prato de comida reciclada, e após quatro meses nós fornecemos cerca de 20 refeições diárias a preços baixos, ou grátis para aqueles que não tem trabalho. Nós gostamos da ideia, talvez um pouco romântica, de criar um lugar onde pessoas com problemas semelhantes – a perda de casa ou trabalho, uma redução drástica da renda – poderiam de alguma forma sentirem-se representados”.

Além de uma especial atenção à pessoa do trabalhador, os voluntários da cantina também buscam respeitar os animais e o ambiente. A cozinha se caracteriza, de fato, por ser vegana e “freegana”: “servimos apenas alimentos de origem vegetal, favorecendo a autoprodução e cadeias de abastecimentos mais próximas – continua Arianna – e esposando o ‘freeganesimo’ somos atentos às práticas de recuperação e reciclagem, recusando-se a contribuir para a máquina capitalista de mercado através de grandes cadeias de lojas, que não asseguram a qualidade dos alimentos e muitas vezes mesmo uma transparência na cadeia de abastecimento. Também, um fato que nos afeta é o desperdício de alimentos, enorme e totalmente injustificado, que muitas vezes surgem não do natural ciclo de vida de um alimento, mas pelas decisões de mercado, ao manter os preços estáveis em algum nível. Então, nós difundimos a nossa voz entre alguns exercícios do tecido livornese e, até à data de hoje, 6 lojas nos doam os produtos não vendidos, que de outra forma seriam desperdiçados”.

Desta forma, a associação reduz consideravelmente custos na cozinha, recuperando comida que não é mais vendável, mas ainda saudável, que é cozida no mesmo dia. Além da rede criada com as lojas, os cílios da bela “Polpetta” e seu projeto social, também atingiu uma cadeia de varejo: a cooperativa Unicoop Tirreno através do diretor de política social da empresa propôs um acordo com a cooperativa do bairro de Porta a Mare: “a discussão do acordo com a Unicoop Tirreno não é fácil dentro da coletividade onde nós tendemos a tomar qualquer decisão, buscando a unanimidade. Embora inicialmente não houvesse uma posição unificada, finalmente, se decidiu aderir juntos. Seria hipocrisia recusá-lo quando a cooperativa é uma realidade sustentada pela população de Livorno, porque a maioria das famílias faz suas compras lá e – ao contrário da outra cadeia de distribuição concorrente – a Unicoop Tirreno é nascida de seus associados”. Graças a um acordo com a loja da Cooperativa, a associação recebe, em média, 30 quilos de alimentos não vendidos todos os dias, evitando seu descarte. “Nós ativamos a prática da ‘geladeira vazia’, explica Arianna: da cooperativa recuperamos de tudo, e mesmo quando achamos ingredientes de origem animal, usamos na preparação da refeição, mas nós a distribuímos para as famílias do Comitê desempregados e aqueles que a solicitarem”.

10408504_611331415677295_478065515007332324_nEnquanto Arianna recorda, Beatrice Bellagotti e Arianna Honovich, duas outras voluntárias da associação, terminam o trabalho na cozinha. É 12h30 e a Cantina é aberta para o público. O espaço ganha vida: chega um grupo de amigos, uma mãe com uma criança, um casal, alguém se senta sozinho. Há outros voluntários para dar uma mão na cozinha, alguém pergunta quem é o responsável de hoje pela recuperação de alimentos não vendidos, o ar se torna saboroso e pratos de massas começam a serem servidos. “Eu venho aqui 2-3 vezes por mês – nos diz Maria, com sua filha de dois anos apoiada no braço. Eu conheci a Cantina por meio de algumas meninas que são voluntárias aqui. Eu gosto: é barato, agradável, simples. Eu não procuro nada muito estruturado. Eu tenho uma menina e aqui é confortável, havendo uma área dedicada as crianças”. “Eu compartilho plenamente a escolha ética deste lugar – nos explica Valerio, do jeito que é capaz de oferecer refeições gratuitas para as pessoas que não têm trabalho, e atenção dedicada à recuperação dos produtos. Embora eu não sou, no entanto, aprecio a escolha vegan, com vista a respeitar o meio ambiente. Então, é muito relaxante, você pode comer e depois parar um momento e ler alguma coisa”. “Costumo vir frequentemente ao “Polpetta” – diz Grazia. “Até mesmo o jantar de 31 de dezembro eu fiz aqui: um ambiente agradável onde se pode encontrar interessantes propostas de reuniões, conferências que são feitas à tarde e à noite abordando temas de interesse pessoal. E a maioria concorda com a escolha da cozinha vegan”.

Arianna confirma as palavras dos patronos: que este espaço não se ocupa exclusivamente em ser um restaurante, e a associação que o tem gerido o torna “o lar de várias realidades que estão fazendo cursos aqui, como a Universidade Popular Bicchierin. Também à noite temos o CineAutor e uma vez na semana um aperitivo, com a qual nos auto-financiamos. Nós tentamos tornar o espaço o mais aberto possível, com a ideia de que é sempre um lugar disponível para o tecido (social) da cidade”. Enquanto alguns acabam de comer, vêm novos “clientes” e há aqueles que relaxam em uma cadeira de leitura. Nós decidimos almoçar juntos com Arianna, para que ela possa terminar a sua história: “Entre os objetivos futurosos está o de aumentar a auto-produção. A “Polpetta”, na verdade, é de alguma forma geminada com a Horta Urbana da Via Goito, porque uma parte dela foi ocupada no mesmo dia das instalações da Cantina Popular. Nós recentemente plantamos árvores, amêndoas e frutos secos, e quando eles começarem a dar frutos, gostaríamos de usá-los, obviamente, respeitando as leis de transformação. Nós promovemos momentos de degustação dos produtos da Horta, e temos sido bem sucedidos, porque é um prazer saborear o prato que você cultivou, ou que tem cultivado um amigo”. Entre os objetivos da associação é também crescer o número de refeições servidas cada dia: “A resposta do nosso território até agora tem sido muito positiva, com o local, as obras do projeto agregam as pessoas. Recebemos pedidos para virem ser voluntários, ou para alugar o local para aniversários, então isso nos dá esperança. Gostaríamos de chegar a 30 refeições por dia, e estamos no caminho certo”, diz Arianna.

“Outro desafio para o futuro é fazer uma ocasião de luta e compartilhar o que é muitas vezes é percebido como um momento de depressão, que pode coincidir com a perda de postos de trabalho, mas também de precariedade ou de se tornar sem-teto. Estamos satisfeitos que tantas pessoas desempregadas marquem presença neste espaço com a dignidade, com a percepção de estar em um lugar onde a sua condição é respeitada, e sabendo que aqueles que promovem este lugar não estão em posição diferente da sua. Nós somos primeiro desempregados, e no início para muitos parecia irônico que em nossa situação precária poderíamos assumir um empreendimento similar. No entanto, o negócio realmente decolou”. E fê-lo em completa autonomia, sem pedir qualquer financiamento ao abrigo de políticas públicas de bem-estar. “É uma escolha radical, cansativa, mas temos o prazer de observar – comenta Arianna. É uma coisa que temos sido ao longo de todo o tempo; por isso mesmo pedimos ajuda para a retirada da comida não vendida e não temos vergonha de cede-la às pessoas que vêm para comer aqui. É, em essência, o desafio da autogestão, onde não há hierarquias e protocolos a serem seguidos, mas onde tudo pode ser compartilhado, se decidem juntos, às vezes à custa de ser pedante, e todos, independentemente da sua condição, são centrais, assumindo a responsabilidade e sendo convidados a tomarem nota do tamanho de todo o problema. Muito mais do que o trabalho voluntário clássico, mas um caminho de desenvolvimento que não é encontrado em outra formação social. “Ninguém exclui, no entanto, que a “Polpetta” também pode servir para criar emprego. “Hoje somos todos voluntários e ninguém ganha nada, concluiu Arianna, e o primeiro objetivo é fazer a “Polpetta” se desenvolver, na melhor das hipóteses. Nós não excluímos que a partir desta experiência pode nascer um emprego. Vamos ver o que o futuro nos reserva”.

Contatos, e-mail: polpettavegfreegan(arroba)gmail.com.

Outras cozinhas

Em Bolonha, mais alimentos mais autogestão e sustentabilidade significa “Eat the Rich”, no espaço do Centro Social Vag61 na Via Paolo Fabbri 110. “Comer bem e de forma saudável sem gastar uma fortuna” esse é o desafio que eles têm como estudantes e trabalhadores temporários que criaram este restaurante popular, que organiza cursos de panificação, compotas, queijos e massas frescas.

Em Milão, na viale Sarca 183, existe a CasaLOCA, com sua culinária popular autogerida, onde se pode almoçar a baixo custo com alimentos orgânicos da rede de gás e experimentar o Café Zapatista, das comunidades indígenas de Chiapas e óleo importado de Palestina.

Em Roma, o Forno popolare di Casetta Rossa na via M 14, organiza a “fornada semanal” todos os domingos, você pode trazer sua massa e fazer o seu próprio pão a custo zero (é prevista uma oferta livre para a compra da lenha), e participar de aulas de panificação.

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